2011 motivos para acabar

Um. Pessoas arrumaram as malas. Dois. Fiquei sozinho. Três. O assunto mais temido da faculdade me visitava todas as noites: trabalho de conclusão de curso. Quatro. Decidi viver a vida da minha maneira. Cinco. Preconceito. Seis. Meus pais sofreram. Sete. Fui rejeitado por pessoas. Oito. Empresas rejeitaram o meu currículo. Nove. Larguei o inglês. Dez. Não consegui voltar a estudar o idioma…

Cem pessoas ou mais foram agredidas por intolerância. Duzentos. Meio do ano e eu ainda não tinha tema para o trabalho de conclusão de curso. Trezentos. Nadei e morri na praia diversas vezes. Quatrocentos negativo no banco foi algo mais comum do que o nunca. Quinhentos. Amy morreu; Michael, dois anos. Seiscentos. “Não, Rafael. Você não serve para trabalhar em assessoria.” (uma das profissionais que eu mais admiro na área). Setecentos. Tequila, uísque, vinho e outras doses foram minhas companheiras na solidão – bateram no meu estômago e voltaram com gosto amargo. Oitocentas festas e shows aconteceram e eu não pude ir. Novecentos. Brigas via telefone, e-mail e talk com as pessoas mais queridas e adoráveis da minha vida.

Mil. Meu pai chorou. Dois mil. Você chorou e eu nada pude fazer. Dois mil e um. Chorei por motivos abstratos e por não entender que tudo tem uma hora pra acontecer. Dois mil e dois. Adele surgiu para me fazer chorar. Dois mil e três. “Agradecemos a sua participação, mas você não prossegue em nosso processo seletivo”.  Dois mil e quatro. “Seu trabalho não está bom. Falta em você paixão”. Dois mil e cinco. Comecei um projeto científico, uma análise fílmica e um capítulo de um livro. Todos, não conclui. Dois mil e seis. Estourei o cartão de crédito duas ou três vezes. Dois mil e sete. Vi injustiças acontecerem na minha frente e nada fiz. Dois mil e oito. Não viajei. Dois mil e nove. Senti ciúmes. Dois mil e dez. Os trabalhos teóricos da faculdade são chatos. Dois mil e onze vai e não volte nunca mais.

ato um: saudade

abri os portões, mas dessa vez foi calmamente. lembro que quando eu tinha oito anos, eu entrava correndo por aquele corredor e encontrava você me esperando, de braços abertos. para o cardápio, os meus pratos favoritos: macarronada, carne cozida e a incomparável batata frita. você fatiava fininho as batatas grandes e deixava elas crocantes.

enquanto você preparava o almoço, eu ia até o quintal de terra, colhia uvas da parreira. sentava no chão com as roupas claras que costumavam me vestir. me sujava de terra, fazia expedições. brincava com os meus carros, tratores e pás. cavei buracos, enterrei tesouros. meu primo, que me acompanhava nos ‘caminhos do ouro escondido’, tinha brinquedos melhores do que eu. o vídeo-game dele era um “Nintendo 64” e eu tinha apenas o “Super Nintendo”. assoprava fitas, mas no “Donkey Kong” ninguém era pário pra mim. mas naquele momento, aonde apenas a terra era comum a nós, era incrível. o mais novo, ao contrário do irmão chato e metido, me admirava. copiava cada passo que eu dava. cada risada ele imitava. eu, leonino e que valoriza àqueles que me valorizam, achava ele um máximo por me adorar.

“o almoço está na mesa”. adorava ouvir essa frase aos domingos. eu corria, lavava as mãos, me sentava à mesa. você me olhava, ria e dizia: “tá ficando grande, menino”. meus pais, então, concordavam com a sua afirmação e me admiravam. enquanto isso, eu me sujava de molho vermelho, me esbaldava nas batatas fritas crocantes e me enchia de tanto comer. logo, corria de novo para o quintal e passava as minhas tardes. eu ia embora no final do dia triste, mas sabia que no domingo seguinte estaria ali. você iria repetir o ritual de palavras, afagos, envelopes com notas de R$ 10. “esse dinheirinho é pra você comprar bala e doce”. adorava.

hoje, eu entrei calmamente por aquele portão velho e enferrujado. a sua casa está judiada. você (…)

eu nem sei o que dizer sobre você. está velha, sofrida. alguém te roubou a memória. “quem é você?”, “sai daqui, vai embora”, “filho da puta, maldito” e por aí vai os seus dizeres. nem sabe o que está dizendo. nem lembrar dos seus filhos você lembra. nem você sabe quem você é. silêncio. tenta uma, tenta duas, tenta três. na quarta, você consegue ficar em pé. anda passo a passo. senta. levanta um, dois, três. anda, senta. xinga e chora. lágrimas de criança perdida e sem doce. dorme. chora.

triste. o sentimento que paira em meu coração é tristeza. como alguém não tem nem mais memória?

sentei a mesa e o almoço foi feito por minha mãe. não tem batata frita crocante, não tem carne cozida, não tem macarronada. não tem sal, pois você não pode ingerir. não tem alegria. não tem olhar de admiração. não tem mais você.

“tchau vó, até mais”. ela me olhou profundamente. parecia que por algum milésimo de segundo ela se recordava de quem eu era. “tchau, vai com Deus”. “amém”. ela voltou a olhar para o nada.