O amor mais contestável: família (parte 2)

A madrugada chega e o silêncio que havia se estabelecido por algumas horas acaba. O telefone toca e a mãe, que vive de prontidão, atende. A polícia mais uma vez pegou o seu filho caçula em uma festa. Muito drogado e alcoolizado, o menino foi levado à delegacia juntamente com uns amigos. Todos de classe média, com pais que costumam bancar as noites de farra e diversão dos moleques. A matriarca fica em estado de choque, pois não consegue se acostumar com as atrapalhadas do filho.

Neste momento, o pai ainda alterado dos goles exagerados de cerveja acorda eufórico. A mulher explica a situação. Ele inicia uma discussão e afirma piamente que a “incompetente” não educou o garoto. “É a sua obrigação, mulher! Eu trabalho para dar do bom e do melhor e você nem serve para criá-lo”. Ela chora, pois é a única maneira que encontra para sanar o vazio que aumenta a cada dia dentro do seu coração.

O pai é rude com o moleque na delegacia. Grita, xinga, da uns tapas que em algumas vezes acertam o menino. Um é mais culpado que o outro, mas como os pais tem sempre a razão, é obrigação do caçula baixar a guarda. A mãe abraça o filho e diz que tudo ficará bem. Ele recebe amor de um lado e ódio do outro. Todos não entendem o escândalo, mas quando buscam na mente, se recordam de já ter presenciado esta cena em algum momento nas suas vidas…

Às vezes, olhamos para o outro de forma crítica, mas temos vergonha de assumirmos ter um pai alcoolatra, uma mãe super protetora, um irmão sem limites. Família é o tema que mais tem me visitado a mente nestes últimos dias. Acredito que a culpa está em “Brothers and Sisteres” ou apenas no meu olhar atencioso sobre a minha família. Tenho começado a sentir saudade daquilo que eu ainda não vivi. Fico imaginando como será em 2013, quando o meu ciclo faculdade-início da vida adulta irá se findar. Penso que terei que seguir o meu rumo sozinho e isso me assusta mais do que foi ter entrado na faculdade, terminado o ensino médio, ter passado pela primeira semana de avaliação em algum estágio.

Tenho medo de não dar conta da vida sem o “sim” ou “não” do meu pai. Me assusta imaginar que chegarei em casa e minha mãe não estará mais lá. Mesmo que muitas vezes ela reprove os meus atos, as minhas manias e os meus critérios de encarar a vida, eu sei que ela, em nenhum momento, deixou ou deixará de me amar. Mas só de pensar que o vazio irá existir, tenho medo.

Por outro lado, encaro como alívio não ter um pai me dizendo o que é certo, o que é errado. Fico feliz de imaginar que poderei trazer para o meu abrigo qualquer que seja a pessoa, em qualquer que seja o horário. Poderei ter mais um gato, não arrumar a cama e escutar música na altura que me agrade. Eu terei a possibilidade de tomar banhos longos, pois a conta de água e de luz serão pagas por mim. Eu terei a chance de gritar quando eu quiser.

Mas não será a mesma coisa. Não será porque grande parte daquilo que eu desejo fazer é proibido pelas regras impostas por meus pais e não ter mais a chance de quebrar uma delas não é legal. Não tem graça fazer por fazer, sem contestar. Não tem a mesma graça sem um irmão para brigar, para disputar o banheiro pela manhã.

Não será a mesma coisa, pois família é isso: um amor que se contesta, mas que vale a pena. Mesmo tendo um irmão arrogante, uma irmã rebelde, lésbica e que não é aceita pelos pais. Ter um irmão super protegido por uma mãe fria, severa e individualista. Ter um pai alcoolotra, autoritário e que mantém suas outras famílias pela vida a fora. Mesmo que tudo isso pareça algo odiável, não tem como deixar de amar. Família: eu te odeio com amor, eu te amo com o meu ódio.

* todos personagens são fictícios, mas que fazem parte da sua e da minha família

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O amor mais contestável: família (parte 1)

Ele acabou de receber a promoção que tanto desejava. Conseguiu um cargo de gerência na empresa que trabalha há mais de 20 anos. Hoje é um dia de comemoração. A esposa, que fez algumas novenas a favor da vida profissional do marido está feliz. Ela acha que hoje ele chegará de bom-humor em casa e não irá agredi-la. Mas se engana. O marido, que costuma beber um pouco além daquilo que se é permitido pelos padrões da sociedade, nunca bateu na mulher com a sua força. Apenas despeja gritos e insultos. Isso não é considerado grave, afinal de contas, na foto em família em que ela, os três filhos e o marido tiraram no Natal estampa sorrisos para todos que passam pela estante da sala. Em um retrato 15 por 20, ao lado das fotos dos filhos quando eram crianças, todos parecem felizes. E são em alguns momentos de paz. Alguns momentos antes do pai extrapolar na bebida.

As primeiras horas da noite chegam, mas o marido não. Ele certamente saiu com os colegas do trabalho para comemorar a promoção. Ela, que prefere nem imaginar como serão as próximas horas daquela noite que tinha tudo para ser perfeita, só consegue pensar na outra. Naquela que roubou os momentos de amor e felicidade daquela casa. Ela pensa na amante do marido, que não tem culpa de amar uma pessoa casada. Mas, como sempre existirá um vilão na história, que sejam as amantes, os esposos alcoolatras, os que provocam o incomum.

Durante o jantar, que não contou com a participação do marido, estão os quatro sentados na mesa em silêncio. O primogênito é engenheiro, recebe um bom salário, não costuma falar sobre a sua vida. É reservado e arrogante. Perante a família só tem palavras quando o assunto é o carro que ele comprou, a viagem para a Europa que ele realizou. Não gosta de ficar muito tempo à mesa, pois os irmãos o incomodam. A mãe fala muito e ele não gosta de ouvi-la. Ela, por outro lado, não sabe o porque do filho ser assim. Mas não se importa. Ele é independente e ela nunca gostou muito dele.

A filha do meio foi a princesinha até os 14 anos. Se vestia feito uma boneca, fazia ginástica e era o depósito dos sonhos infantis da mãe. Nela eram projetados todos os desejos internos da mãe. A menina cumpriu a risca até o dia em que não aguentou mais. Hoje ela é rebelde. Ela curte roupas escuras e não usa mais rosa. É independente e não aceita mais a mesada do pai. Já tem quase 20 anos e trabalha desde cedo. Tem um emprego no shopping e paga sozinha a faculdade de artes cênicas. A mãe a trata a base dos gritos, pois os seus sonhos não foram saciados e não serão mais. A garota não vai mais casar na igreja, não vai usar vestido de noiva. Nem véu, nem grinalda. Ela é lésbica e os pais não querem nem saber deste assunto. Acham que é apenas uma fase, uma má companhia. Um erro que deve ser resolvido com o tempo.

O menor é muito menor ainda. Os cabelos brancos da mãe são graças ao menino. Ele não gosta de estudar, mas gosta de mulher. Ele não gosta de trabalhar, mas pelo menos ainda está sob a proteção da mãe, do dinheiro do pai. É o caçula que vai à festas, bebe muito. Usa drogas, é preso. Mas sempre está sob o controle dos pais. Ele é novo. É o caçula e vai aprender. Seu único prazer é desfrutar dos prazeres da juventude. Tem pai pra bancar isso, tem o dinheiro depositado toda semana. Tem cartão de crédito pra emergências, que nunca são usadas somente pra emergências. Estuda em escola particular. Vai ser reprovado. Mas não importa, ele terá solução um dia. É apenas coisa de menino, diz a mãe.

O jantar acaba e o pai chega. Alto, bêbado. Ele exala o cheiro do perfume da vadia da amante, que comemorou o vitória profissional com ele. A mulher não se conforma. Ela grita, quebra louças. Eles discutem. Ela xinga. Ele vence ela nos insultos. Ela chora.

Os filhos não se importam. A mãe é severa e se o pai tem uma amante deve ser culpa dela. Não conseguiu manter ele na linha. Ela deve ser frigida e o pai precisava de uma trapada diária. A culpa é da mãe.

O silêncio se estabelece somente quando o marido dorme, quando a mãe para de chorar, quando o primogênito se tranca no quarto para estudar, quando a menina desliga o som, quando o caçula sai para rua.

As pessoas daquela família se odeiam.

Me julgue

Não julgar. Parece que é algo tão fácil não fazer aquele comentário sobre a roupa das pessoas na rua ou não fazer insinuações maldosas sobre o comportamento das pessoas. Certamente o segundo item citado é o mais difícil. Muitas pessoas disseram para mim estarem surpresas com um texto sobre a minha grandmother. Pessoas que se consideram próximas falaram que estavam realmente surpresas com toda a sinceridade e todo o sentimento depositados naquelas palavras. Frases essas, que não foram escolhidas a dedo, mas, sim, vomitadas no decorrer de uma digitação com poucas edições. Eu estava com aquele sentimento entalado na minha garganta e simplesmente coloquei para fora. Outras pessoas disseram que achavam que eu não era capaz de escrever com tanto sentimento. Como podem ter à audácia de dizerem isso para mim? Como alguém pode achar que tem a liberdade de dizer que sou realmente alguém com sentimentos palpáveis?

É simples: sou alguém que chora, que sente dor, que não gosta de expressar os seus sentimentos de tristeza perante os outros. Sou alguém que se esconde na sombra de poucas pessoas. Sou sarcástico, sou irônico, sou cínico quando quero. Até já disseram que sou valente demais sendo assim e que me escondo em armaduras – ou até mesmo atrás de máscaras. É incrível como é fácil dizer isso sobre alguém. Sei muito bem disso, pois faço isso diariamente. Também cometo esse erro. Falo que pessoas estão erradas, que pessoas estão certas. Julgo discursos, julgo diálogos de pessoas no ônibus. Também sou aquele que ri quando alguém grita no telefone com algum familiar ou namorado. Sou a pessoa que sem pudor algum diz “você está errado”, “você não deveria se comportar assim”. Sou a pessoa que julgou você quando julgou a minha forma de escrita. Sou eu, sou você. Somos nós que temos essa necessidade de apontar e de listar os erros de cada um como se fosse uma distração.

Estou acuado. Cercado e me culpando pelo meu próprio erro. Estou sempre na defensiva e não me importo. Mentira. Eu me importo sim. Se eu pudesse escolher, eu escolheria não estar sempre na defensiva. Mas não tem escolha. Ou até tem escolha, mas, não, isso não é simples. Eu julgo cada passo das pessoas na rua, cada roupa que acho errada, cada sorriso que considero torto. E estou neste momento odiando o fato de ter sido interpretado da maneira como fui. Mas, não. Eu não tenho o direito de pedir retratação, pois sou passível de erro. Eu erro e não quero ser perfeito. Apenas quero não me cobrar tanto por minhas imperfeições.