O velho

Foto: Lucas Incas

Você é sujo, mas se formos olhar para dentro de nós ninguém é tão limpo assim. Das vezes que cruzamos o mesmo caminho, senti um cheiro não muito agradável: o meu, claro, pois o seu com apenas um banho resolve. A cerveja barata na mão é sagrada, quase um ritual. Lata vai, lata vem e de hora em hora eu me aproximo da janela para te observar. Enquanto tento acompanhar os seus movimentos imprecisos, fico imaginando o que te levou até a sarjeta.

Talvez você tenha tirado o sustento das estradas e, vez ou outra, depositava um trocado nas mãos da preta que cuidava dos rebentos que nunca foram muito seus. Pelos cantos do vasto chão de poeira, você se divertia com aquelas com quem se deitava antes de seguir pelo asfalto. Um dia seguiu e nunca mais se encontrou. Ou você foi um comerciante de rua. Tirava do potencial vocal o dinheiro para dar de comer a família. Do alimento que a terra dava, você conseguia comida aos pequenos e grana para uns industrializados no domingo. Um dia não aguentou as tradicionalidades. Não gritou mais.

Apesar dos julgamentos, do alto da minha janela, imagino que o dia a dia das ruas não seja fácil. Porém deve ser libertador saber que ninguém se importa muito com a sua vida, a não ser pela sua aparência não tão agradável. Retorno ao sofá e fico pensativo sobre a minha vida invejável, de moldes em que tento me encaixar mesmo sabendo que braços, pernas e mente ficam de fora. Quem eu quero enganar? Rrum… Não tenho coragem de abandonar a minha vida mesquinha. Já você, que me parece superior agora, segue a vida exalando verdades.

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De manhã

Rolou uma identificação com essa sua falta de vontade para encarar os primeiros momentos do dia. Aquela noite foi a primeira vez que dormimos juntos e a minha maior preocupação era acordar ao seu lado, com o cabelo fora do lugar e o travesseiro forrado de pocinhas de baba. Tudo muito normal dentro do meu ritual diário. Mas esse momento matutino era assustador por eu ter consciência de que a imagem de homem imaculado acabaria.

Coloquei o celular para despertar antes da minha vontade de viver. Som baixo, mas audível. Nos deitamos de conchinha porque é fofo. Rapidamente me senti sufocado e fui me desprendendo de você com delicadeza para não atrapalhar o seu sono profundo. Por vezes, levantei durante a noite. Caminhava até o banheiro, penteava o cabelo, lavava o rosto. Foi uma noite muito mal dormida, mas nada poderia mudar a minha vontade de manter a perfeição na hora de acordar. Futil? Talvez.

Deitei. Relaxei. Não ouvi o toque que interrompe os sonhos. Despertei no susto. Você não estava mais na cama. Corri para o banheiro, dei um tapa na cara e me arrastei lentamente até a sala. Lá estava o homem que eu ainda não conhecia. Cara amassada, calça furada e sentado no sofá, com café nas mãos e assistindo ao jornal em seu ritual matutino. Ele só me deu bom dia. Não gostava de se comunicar antes do dia atravessar a sua mente. As manhãs nos aproximaram ainda mais depois daquele dia.