O carteiro de notícias ruins

Por: Maleonn
Foto: Maleonn

O pior emprego do mundo é o de carteiro de notícias ruins. Cabe a ele dizer aquilo que ninguém tem coragem de falar. Na descrição do seu trabalho estão funções como informar o falecimento de mães, pais e avós, confirmar que ex-namorados seguiram com as suas vidas e avisar que o serviço de alguém não é mais necessário na empresa. Anunciar as piores notícias do dia é uma tarefa que machuca antes, durante e depois da repercussão dos fatos. O sofrimento que corrói as entranhas é tão grande que ele morre um pouquinho a cada dia até proferir todas as sílabas. E o carteiro não sabe a melhor forma de dizer a coisa certa. Notícias ruins nunca chegam em boa hora.

Pensar minuciosamente em palavras leves e criar um discurso elaborado são pura perda de tempo. A dor não tem amortecedor. Ser direto e duro também não é possível, pois o amor do carteiro é muito grande e ele não quer que a morte do sentimento gerado no peito seja trágica. É duro aguentar o dia chuvoso, o cachorro com raiva e a ansiedade que antecede aquele momento.

Ao apertar a campainha, a primeira vontade é sair correndo ladeira abaixo para não ter que vivenciar o dilema. O choro previsto em quase todos os casos é de cortar o coração. Enquanto os segundos passam, secretamente o carteiro quer apenas finalizar as suas entregas. “Olá, pois não?” “Aqui é o carteiro. Você pode receber uma notícia ruim?”.

Os dedos suam, o coração gela e o carteiro diz frase por frase de forma doce, firme e com todo o cuidado possível. No meio da sua ladainha, o choro é livre, o grito é permitido e o drama não é levado em consideração. Tudo pode acontecer naqueles instantes. Inclusive o silêncio. Receber as piores notícias e fechar as portas como se nada tivesse acontecido é uma escolha. Ninguém sabe o que esperar nesses casos.

O sofrimento é diário e não tem fim. O carteiro de notícias ruins volta para casa todos os dias pensando sobre a sua carreira. Ele sabe que está fazendo o trabalho direito, mas busca incansavelmente formas de aliviar a dor. E não encontra a solução, além da certeza de que bons ventos sempre chegam.

O mar

Eu não voltei do almoço porque decidi que aquela era a melhor hora para ir a praia. Almocei no restaurante de sempre. Comida mediana, mas que me sustenta e eu posso pagar. Dessa vez fui sozinha. Consegui me livrar das meninas chatas da contabilidade. Durante a refeição, me veio uma vontade imensa de enfiar os pés na areia e sentir os meus dedos afundarem, sumirem e ressurgirem num movimento repetitivo e incansável. Eu queria era sentir a brisa no rosto, ouvir o assovio do vento e me desligar do mundo. Parei o meu almoço no meio, larguei duas notas de 20 reais embaixo do prato e sai correndo para pegar o primeiro ônibus para o litoral. Tomei a decisão sem pensar muito nas consequências porque aquele era o momento de sentir o mar invadir os meus poros. O ônibus chegou mais rápido do que o meu arrependimento por ter tomado uma decisão madura para a minha alma. Entrei e pedi para o motorista ir rápido. O meu coração não aguentava de tanta ansiedade. A sensação era tão libertadora que não me importava por estar indo a praia de salto e laquê. O tempo passou num piscar de olhos e quando ouvi o vendedor de sacolés foi como música entrando em meus ouvidos. Desci apressadamente, com os sapatos nas mãos e os cachos derretendo por causa da maresia. Respirei o ar puro da sensação de estar fazendo a coisa certa. Meus dedinhos gritavam no calor do asfalto e eu corri até a areia. Afundei. E cada vez mais tinha a certeza de que a mulher burocrática que vive em mim sentia o delicioso prazer da transgressão escorrer junto do suor do rosto. Uma euforia tomou conta de mim e eu me joguei no chão para fazer anjinhos de areia… Acordei. Em frente ao meu computador. Numa segunda-feira à tarde interminável. E me dei conta de que a mulher dos meus sonhos é muito mais interessante do que a que vos escrevo. Fechei os olhos novamente.