Não é falta de educação, é timidez

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Ilustração: Russ Mills

Paulistana é uma menina que morreu sem respostas. Disse bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e de nada mas ninguém respondeu. Nem o porteiro do prédio, nem o cobrador de ônibus e muito menos o colega de trabalho. Recebeu silêncio e cara feia na maioria das vezes. Ninguém queria saber de papo. No vácuo das suas tentativas existiu apenas frustração.

E ela nunca se acostumou. Sempre insistiu no sorriso de poucos dentes para não assustar, mas mesmo assim, todos a ignoravam. Mudou de tática e passou a adotar o riso amarelo, com pouco entusiasmo e coração cheio de amor para dar. Nada. Ninguém se quer notava a presença de Paulistana.

Num dia de inverno, de ruas cinzas e com sol ardente, viu a tão sonhada oportunidade de abraçar o mundo bem apertado. Avistou na saída do metrô um velho amigo. Subiu as escadas de dois em dois degraus para chegar mais rápido. Colocou no rosto o sorriso mais lindo, as covinhas mais profundas e o olhar mais amoroso que tinha para oferecer na ocasião. Chegou no topo, gritou a sua celebração e recebeu uma atitude envergonhada. O amigo, que havia se contaminado pelo vírus da vida, deu às costas em troca.

Paulistana ficou boquiaberta e com os olhos marejados. Perdeu a esperança e a vontade de tentar encontrar respostas aos seus bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e de nada. Paulistana então decidiu usar, dali em diante, o artifício da timidez como justificativa para a falta de educação. Morreu junto da maioria.