Festa da firma

A festa da firma é um dos melhores momentos do ano para o proletariado brasileiro. É nela que você descobre as verdadeiras facetas de cada um. Ou é quando o seu lado mais idiota e tosco se amplifica. Talvez seja melhor amplificar do que as pessoas descobrirem que o seu jeitinho recatado é apenas no ambiente de trabalho. Porque sim: toda festa da firma rola o despirocamento geral do ser humano que passa o ano todo na labuta.

Eu tenho experiências ótimas nas festas de todas as agências em que participei. Claro que nas primeiras só observava o povo colocando as manguinhas de fora. Depois fui eu, claro. Na verdade eu não coloquei as manguinhas, eu praticamente arranquei as mangas, a gola, os botões da camisa florida e quase fiquei pelado. Mas isso eu conto lá embaixo 😉

 

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Eu sempre puxo as pessoas para dançaram É o tchan

Lembro que uma das primeiras festas de fim de ano que fui eu era novo na agência. Foi numa casa muito sofisticada em um bairro nobre, com piscina, orquidário, 20 banheiros, 40 quartos etc. Chiquérrima! A anfitriã era uma senhora elegante do administrativo, que falava bonito e sempre contava suas histórias de quando morou na África. Na ocasião, eu estava tendo contato pela segunda ou terceira vez com the boss, pois ela morava fora a maior parte do tempo.

Pensa numa mulher séria, elegante e tradicional? Apesar de todo o ar soberano, ela era uma pessoa normal. Que veio de ônibus. Por 3 horas. Com um trânsito cagado. Na véspera do Natal. Com o ar condicionado quebrado. Muito calor. Ela nunca se atrasou na vida. Até essa ocasião. Óbvio que ela chegou muito puta e começou a narrar a história acompanhada de vinho branco.

Ela mal bebia.

Ela não tinha comido nada antes.

Então, realizamos o amigo secreto e ela não largava o vinho branco. Do nada, ela sumiu. Foi ao banheiro e de lá não saiu porque passou muito mal. Tivemos que ir embora porque senão ela não sairia de lá. Foi bizarro e desde então não tive mais medo dela. Porque eu tinha!

Também teve aquela vez que eu estava desanimado e disse ao meu namorado que iria ficar um tempinho na festa e depois iria embora. Tinha caipirinha free e o abacaxi estava muito bom. Tomei 7 ou 8 copos. Acabou e eu parti para a cerveja. Aí, fiz amizade com o DJ porque eu sou desses que adora fazer amizades em festas e comecei a pedir os clássicos do É o tchan e do Rouge.

Cheguei à minha casa às 10 da noite, mas na verdade eram 2 da manhã e se riscassem um fósforo no quarto, eu pegava fogo.

Um adendo: nesta mesma festa, cuja temática era verão, uma mocinha se empolgou com os picolés e simulou diversas vezes isso mesmo que você está imaginando. Além disso, antes do evento, ela testou as cadeiras de praia no colo de um mocinho.

Dois adendos: Também teve o rapaz que decidiu sentar no cooler de isopor e isso com certeza deu catástrofe e enchente de gelo na pista!

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PARTY BITCHES!

Outro momento marcante foi quando decidiram realizar a festa da firma fora de São Paulo. Meus amigos, pelo bem da integridade humana, não façam isso.

No esquema excursão, fomos de ônibus para um acampamento na Serra da Mantiqueira. Lá, ficamos parte do dia na piscina sem bebida graças a deus, depois participamos de umas dinâmicas e brincadeiras. À noite, fomos para um combo comida boa + comida frita boa + comida frita e salpicada com queijo dos deuses boa + cervejinha. E vodca. E mais cerveja, mais vodca e mais uns lances aí!

Eu fiquei descalço. Depois abri um botão da camisa. Logo, decidi que iria apertar a bunda de um amigo. Depois, apertei a bunda de uma amiga. Aí, me desafiaram a apertar a bunda do estagiário mala. E quando percebi estava apertando a bunda de todo mundo.

Na época, o auge da música era Show das Poderosas, da Queen Anitta. Começou a tocar na pista e me esqueci do aperta-aperta. Embalado pela música, fiz uns passinhos e apertei a bunda de nada mais nada menos que da diretora da agência, que não sabia o meu nome até aquele momento.

Perdi a compostura e se não fosse o bom coração dessa senhora eu também perderia o emprego.

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Dance, dance, dance!

Morri meia hora depois numa cama quentinha. Mas as pessoas não. Rolou desde marmanjão engatinhando até gente que nunca havia bebido na vida gorfando o quarto todo. Foi épico!

No dia seguinte, no café, de óculos escuros e fingindo que não conhecia ninguém, ouvi da senhora dona da agência: “Se divertiu ontem hein, Persan?”

Nunca mais nos falamos.

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Waacking experiência, meu amô

Pedrinho ‘fazia da vida o que a gente sonhou, pintava do nada um barato, falava umas coisas que a gente nem pensou’. Ele é ‘tão criativo, auto-confiante, um cara cortês’. Na teoria, o Pedrinho da canção homônima da cantora Tulipa Ruiz é bem parecido comigo (link aqui). Mas na prática, a história é outra.

Na teoria eu sou bem resolvido com a minha nudez, com o meu lado afeminado, comigo. É muito tranquilo para mim ficar dentro de um shorts curto, de uma camiseta gola V que vá até o umbigo. É relax usar uma capinha de cachorro amarelo com orelhinhas marrons e focinho. Sou super de boa em relação a maquiagem ou a me expor por meio da dança.

Waacking
Formatura do 2º Ciclo de Waacking (Diana)

Na prática, não. Quer dizer, não era. Talvez eu ainda tenha problemas ao longo do caminho, mas graças aos acontecimentos dos últimos meses, algumas coisas mudaram.

Recentemente, eu me inscrevi num ciclo de aulas de Waacking. Para quem não sabe, o estilo é uma das diversas ramificações do Street Dance e consiste em movimentos rápidos com as mãos, os braços, um pouco de quadril, um cadinho de pernas e música babadeira. A dança nasceu nas baladas gays de Los Angeles, na década de 1970, dentro dos conceitos do Locking (estilo de dança funk e de rua muito espelhada no movimento teatral). Resumindo: é lacre do começo ao fim ao som de Diana Ross, Glória Estefan, Donna Summer e qualquer música com boas batidas e doses cavalares de drama.

Matriculado, fui à primeira aula e quis desistir no meio. Sou muito desgovernado com as mãos, porém não gosto de parar aquilo que começo. Enfrentava as dificuldades e quase morria todas as aulas. Era cansativo e ao mesmo tempo desafiador. Eu precisava viver essa experiência.

Sim, para mim as aulas não eram simplesmente sobre dança. Era uma experiência social, cultural, política e tudo aquilo que vem no pacote do movimento. Cada braçada que eu acertava, comemorava internamente. Mentira. Eu gritava! Ficava muito feliz por estar conseguindo.

E mais: durante o curso, tinha o momento terapia. Lembro da vez que o professor falou sobre a liberdade de sermos quem a gente quiser. Mas de verdade, saca? Ser livre para usarmos qualquer tipo de roupa, acessório ou maquiagem no dia a dia e não nos importarmos com a opinião do amiguinho. Na teoria, tudo lindo. Na prática, o Persan aqui não conseguia ser aquele cara que defende a liberdade do corpo e a não divisão de gênero para as coisas.

Mas deu certo. Mudou e hoje estou formada, meu amô. E arrasando nos bracinhos and sem dor muscular em lugares desconhecidos do meu corpo – outra vantagem: você balança tanto que descobre músculos novos, que nunca doeram antes, rs.

Waacking perfil
Rafael Persan veste turbante elaborado com uma calça jeans (projeto by me), casaco longo, vestido preto by Paula L. Paulos, meia calça laranja e botas… velhas. Make básica: glitter no bigode

Na prática agora, o que antes era teoria. Por isso, obrigado a todos os envolvidos na construção desse personagem que tem forma, corpo, estrutura, pensamento e ideais políticos: sermos como quisermos ser. E sermos livres.