Tique na lista de coisas inusitadas

Mentalmente eu criei uma lista de coisas inusitadas que eu poderia fazer durante a minha viagem. Claro, essa lista nunca tem nada de inusitado até eu fazer e colocar essa coisa lá. Em 2 semanas vivendo em Laguna de Rocha – uma reserva natural uruguaia, onde eu trabalho num campo extenso e cheio de coisas inusitadas para fazer – já fiz o bastante para preenche-la. Arriba!

  • Ajudei a construir um galinheiro. What? Exatamente: minha primeira obra de engenharia civil, com uma arquitetura contemporânea, pois todos os materiais utilizados são escolhidos a olho e retirados do galpão, está concluída. Nem acredito! Depois de serrar (isso dá muito trabalho quando a motosserra elétrica não está funcionando e você tem que fazer da forma convencional), fazer buracos com uma furadeira autoclave, martelar pregos e muitos dedos, ficou pronto. Claro, olhando assim não é a coisa mais bonita de se admirar, mas eu nunca imaginei que faria um galinheiro na minha vida.
  • Auxiliei a cortar as asas do Jéferson (o galo) e de suas três mulheres galinhas – no mundo animal é permitido a poligamia, mas só para o homem, como numa sociedade machista patriarcal comum.
  • Recolhi escombros em Rocha. Isso mesmo: fui num terreno pegar pedaços de casas, tijolos e concretos para cobrir os buracos da estrada de terra. Enchi a parte de trás de uma caminhoneta por cerca de 2 horas e tampei um total de 3 buracos em apenas 10 minutos. Ainda falta mais um tanto de buracos, mas arriba!
  • Retirei do campo as malezas – plantas que nascem no meio do pasto que não tem serventia nenhuma e que se você as deixa, elas se alastram e aí não tem pasto, não tem comida para as vaquinhas e fode com todo o ciclo natural das coisas. E pior: tem chovido muito no inverno e muitos cargados estão no meio de pequenos lagos. Aí, é água até o joelho e dale marretada nas filhas da putinha!
  • Aprendi a fazer pão. Ficou meio médio, mas ficou bem do comestível e agora já posso viver felizinho comendo do meu próprio glúten – inclusive, não abram mão do glúten, pois ele conforta a alma no frio e com um chazinho é quase como ganhar um abraço de alguém querido.
  • Refiz um cercado. Carreguei madeira de um lado, cortei arame, a mão e os dedos de outro. Prendi as madeiras em cima, embaixo e vez ou outra cortei um braço. No caso, o meu quase se foi com a motosserra um dia, mas por sorte eu estava com 2 blusas e estou intacto – relaxa mãe, só rasgou a jaqueta.
  • Em breve, vou marcar o gado igual a abertura da novela – tá aí uma coisa inusitada já inclusa na lista de coisas inusitadas que eu ainda não fiz.
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No limite

Há alguns dias eu reclamei porque fiquei 6 horas sem energia e sem água. Já estou em Laguna da Rocha há quase um dia e somente agora consegui um ponto de eletricidade. Aqui tudo funciona com luz solar, mas chove lá fora (eu durmo aqui dentro? não) faz tempo. Com isso, temos pouca energia ao longo do dia. Por sorte, arrumamos o cano pela manhã e agora temos água. Claro, isso não significa que ela seja quente e nem que eu tomei banho.

Cheguei ontem debaixo de chuva. Desci no meio da rodovia, no km 198,50. Jorge (outro na minha vida, rs) estava me esperando com a sua namorada. Ele, o ariano mais torto que já conheci, fala rápido um espanhol difícil de compreender. Ela, de sorriso doce e sereno, explica o que ele tenta dizer. Chegamos na porteira. Desci, coloquei as minhas galochas e andei por 2 km. Sussa, não? Chovia, ventava e eu estava com 15 kg nas costas, mas eu não reclamei. Inclusive, acho que o que menos faço hoje em dia é reclamar. Pulei a cerca, encontrei as vacas no caminho e a lanterna do celular desligou. No escuro fui e a luz de velas permaneci, mas nada de clima romântico, somente uma realidade nova se mostrando em minha frente.

Para o jantar? Assado ou churrasco para os brasileiros. Tudo na lareira. Dormi sem saber que horas eram, despertei com a pouca luz que entrou no meu quarto.

Caminhei alguns quilômetros novamente para sacar os sujos. A chuva era torrencial, o vento era absurdo e como somos em três brasileiros – aqui tem um casal de onde? de São Paulo, claro – e têm apenas 2 pares de luva, eu, como novato, fiquei com a mão esquerda. Tentamos trabalhar no campo e fizemos milagre. Sacamos pela raiz a quantidade de plantas que deu, mas foi preciso voltar. Água até o joelho em alguns pontos, vento cortando o rosto na lateral e muita chuva. Me desequilibrei diversas vezes e quase cai, mas nada disso aconteceu. Ufa! Pelo menos agora sei que posso participar do Passa ou Repassa numa boa.

Minha mão sem luva ficou paralisada por algum tempo? Ficou. Meus pés ficaram vermelhos e congelados com o frio? Sim, ficaram. Eu achei que estava com uma leve hipotermia? Talvez, mas nada disso me deixou mal. Acho que toda essa experiência só me faz bem, pois nada mais está no meu controle e, dessa forma, a ansiedade nem chega perto – e nem deve.

A única coisa que eu consigo pensar agora é que não troco nada disso por uma vida dentro de um escritório, com as janelas fechadas e ar quente. A liberdade não tem preço!