Waacking experiência, meu amô

Pedrinho ‘fazia da vida o que a gente sonhou, pintava do nada um barato, falava umas coisas que a gente nem pensou’. Ele é ‘tão criativo, auto-confiante, um cara cortês’. Na teoria, o Pedrinho da canção homônima da cantora Tulipa Ruiz é bem parecido comigo (link aqui). Mas na prática, a história é outra.

Na teoria eu sou bem resolvido com a minha nudez, com o meu lado afeminado, comigo. É muito tranquilo para mim ficar dentro de um shorts curto, de uma camiseta gola V que vá até o umbigo. É relax usar uma capinha de cachorro amarelo com orelhinhas marrons e focinho. Sou super de boa em relação a maquiagem ou a me expor por meio da dança.

Waacking
Formatura do 2º Ciclo de Waacking (Diana)

Na prática, não. Quer dizer, não era. Talvez eu ainda tenha problemas ao longo do caminho, mas graças aos acontecimentos dos últimos meses, algumas coisas mudaram.

Recentemente, eu me inscrevi num ciclo de aulas de Waacking. Para quem não sabe, o estilo é uma das diversas ramificações do Street Dance e consiste em movimentos rápidos com as mãos, os braços, um pouco de quadril, um cadinho de pernas e música babadeira. A dança nasceu nas baladas gays de Los Angeles, na década de 1970, dentro dos conceitos do Locking (estilo de dança funk e de rua muito espelhada no movimento teatral). Resumindo: é lacre do começo ao fim ao som de Diana Ross, Glória Estefan, Donna Summer e qualquer música com boas batidas e doses cavalares de drama.

Matriculado, fui à primeira aula e quis desistir no meio. Sou muito desgovernado com as mãos, porém não gosto de parar aquilo que começo. Enfrentava as dificuldades e quase morria todas as aulas. Era cansativo e ao mesmo tempo desafiador. Eu precisava viver essa experiência.

Sim, para mim as aulas não eram simplesmente sobre dança. Era uma experiência social, cultural, política e tudo aquilo que vem no pacote do movimento. Cada braçada que eu acertava, comemorava internamente. Mentira. Eu gritava! Ficava muito feliz por estar conseguindo.

E mais: durante o curso, tinha o momento terapia. Lembro da vez que o professor falou sobre a liberdade de sermos quem a gente quiser. Mas de verdade, saca? Ser livre para usarmos qualquer tipo de roupa, acessório ou maquiagem no dia a dia e não nos importarmos com a opinião do amiguinho. Na teoria, tudo lindo. Na prática, o Persan aqui não conseguia ser aquele cara que defende a liberdade do corpo e a não divisão de gênero para as coisas.

Mas deu certo. Mudou e hoje estou formada, meu amô. E arrasando nos bracinhos and sem dor muscular em lugares desconhecidos do meu corpo – outra vantagem: você balança tanto que descobre músculos novos, que nunca doeram antes, rs.

Waacking perfil
Rafael Persan veste turbante elaborado com uma calça jeans (projeto by me), casaco longo, vestido preto by Paula L. Paulos, meia calça laranja e botas… velhas. Make básica: glitter no bigode

Na prática agora, o que antes era teoria. Por isso, obrigado a todos os envolvidos na construção desse personagem que tem forma, corpo, estrutura, pensamento e ideais políticos: sermos como quisermos ser. E sermos livres.

Anúncios