Vente pa’ca

Eu disse recentemente que ficar era muito mais difícil que ir.

Mudei de ideia.

Quando a gente constrói qualquer tipo de relação é muito complicado se desfazer dela. Desfazer não, desatar. Sinto que estou desamarrando alguns laços saindo de Buenos Aires. Nós fortes, nós frouxos. Tudo aquilo que eu amarrei aqui durante três meses está se soltando hoje. Me sinto tão perdido e solto, que não sei se isso é bom ou ruim. Talvez seja as duas coisas porque a vida é feita de coisas boas e não tão boas assim.

Meus olhos enchem de lágrimas ao constatar que aqui aprendi que é possível chorar a partida de um amigo que fez na noite passada. Sentir a falta de uma pessoa que nem se recorda o nome. Se apaixonar por sorrisos despretensiosos, olhares inocentes. Enlouquecer em segundos e ter ataques de fúria por causa do queijo que você tinha certeza que estava na geladeira.

A cidade cosmopolita que me abraçou quando eu mais precisava de distração, vai deixar saudade. Aqui vivi grandes mudanças na minha vida. Aprendi que sofrer faz parte e leva tempo. E que não adianta a gente fingir que está tudo bem quando não está: uma hora a maré bate.

Mas em outra hora se acalma.

Em Buenos Aires conheci muita gente. Muita mesmo e de todos os lugares do mundo. Há algum tempo já sinto a falta do basco que imitava a minha gargalhada e a forma como eu andava. Também sinto saudade do brasileiro que gritava “la puta puerta” todas as vezes que alguém a deixava aberta. Lembro do menino de cabelo cacheado e da sua amiga que nunca dormia porque queria viver a cidade. Tem também o francês que chegou aqui esperando a sua moto e nunca mais foi embora. E o australiano do cabelo roxo, que pensei que nunca mais ia. Um dia ele se foi e eu nem dei tchau.

E tem também os lugares: o cheiro das árvores dos bosques de Palermo (o meu lugar favorito no mundo <3), o barulho dos protestos no Congreso, as construções exuberantes da Recoleta, a beleza de passar o fim de tarde no Puerto Madero, a batida do reggaeton da Glam, a lembrança de nunca mais ir ao Amérika.

É tanta recordação (boa e ruim) que acredito que os nós que desatam hoje são apenas para eu ter a certeza de que em Buenos Aires aprendi a ser mais livre. E que os lugares vão sempre estar aqui para eu voltar. Já as pessoas, eu não sei se um dia as encontrarei novamente, mas vou sempre me lembrar da risada estridente do meu gerente, do “hola quien és?” da minha amada chefe, do francês de riso frouxo e do francês que se tornou o meu irmão mais novo – e que eu não sei como viverei sem ele. E da companhia certa da brasileira que faz medicina e vai estar por aqui nos próximos anos.

Ainda bem que alguém fica.

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