Prazer, Persan Jones

Terça-feira, 29 de setembro, 21h29. Alguns quilos mais gordo.

Não está sendo fácil nem para a Kátia e nem para mim.

O Diário de Bridget Jones (filme)

Quando você mora sozinho e já passou por aquele período em que come tudo que vê pela frente – inclusive faz tempo que não vejo o Dico -, as terças-feiras à noite são bem difíceis. Primeiro: você já está há quase 48 horas se alimentando certinho, comendo carboidrato em pequenas porções, ingerindo bastante salada e frango grelhado no almoço, e evitando doces e frituras em qualquer momento do dia. Segundo: você já tem consciência de que se alimentar corretamente faz muita diferença para o corpo, a mente, a alma e qualquer parada internalizada dentro de você. E ter consciência de algo que é tecnicamente certo e querer fazer totalmente ao contrário é comigo mesmo.

E depois que se é adulto, você nem percebe mas faz bastante coisa no automático. Ou como eu gosto de dizer: no ritual. Sim, eu que sou uma pessoa metódica, funciono muito a base do ritual. E, como terça-feira sempre foi dia de Masterchef, internamente eu sabia que à noite poderia cometer excessos. Pizza, esfirra, misto quente com bastante queijo e maionese… E eles: o pão de queijo acompanhado do melhor cookie de baunilha com gotas de chocolate que existe na terra: o do Dia. Quem me conhece, sabe: sou alucinado por aquela porcaria – obrigado por me apresentar Eriket.

Viro criança quando reúno essas belezinhas. Gosto de intercalá-los e chuchar o biscoito no leite e depois tomar o leite, enquanto como aquelas borrachinhas industriais de queijo. Quando percebo, o adolescente que vive em mim e come qualquer porcaria surge e faz aquela lambança. Praticamente não respiro e, se não tivesse um pircing no septo, comeria pelo nariz também. É muito amor químico envolvido.

Mas a consciência chega quando estou quase no fim daquele processo ritualístico. Sabe, aquela culpa depois do MC Lanche Feliz com batata frita feita de 14 ingredientes processados e coca-cola sabor rato triturado? É isso. Eu começo a caçar as embalagens e fazer a contagem de calorias e sódio. Numa conta rápida, sobre dois, desce três e bingo: 1.577 calorias MIL QUINHENTAS E SETENTA E SETE CALORIAS INDO DIRETO PARA A BARRIGA e 2.039 DOIS MIL E TRINTA E NOVE MILIGRAMAS DE SÓDIO CIRCULANDO NA PARTE INTERNA DAS COXAS. Quase me afogo no leite sabor migalhas de cookie. É assustador perceber que todo o regime rigoroso realizado por 45 horas foram pelo ralo.

Me sinto péssimo e tenho vontade de sair correndo atrás da senhora, senhora gula volta aqui e devolve a minha vontade de vencer na dieta!

Quarta-feira, 30 de setembro, 7h34.

Correndo atrás da senhora dieta na esteira da vida e achando que vou conseguir perder os quilos a mais.

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Reflexões sobre a vida de merda

Foto: Seu Lili - Terça Insana (divulgação)
Foto: Seu Lili – Terça Insana (divulgação)

A vida é uma bosta. Sempre vamos cagar nela. Quando eu era bebê, não conseguia controlar a merda que se esvaía por entre as minhas pernas. O leite materno entrava, me alimentava e eu cagava. Igual pomba. Bosta fedida para todo o lado. Foram muitas fraldas brancas para trocar e sorrisinhos inocentes para convencer a minha mãe que eu me sujava, mas tinha um bundão macio e que dava vontade de morder, claro, quando estava limpo e cheirando a talco.

Na infância, a cueca com elástico apertava as minhas pernas e o desafio era difícil: cagar sem ser nas calças. Fazer as próprias merdas e limpá-las era muito complicado. Nas primeiras vezes, eu me atrapalhava e não sabia por onde começar a lavação da bunda. Se a situação ficava preta, o “mãe, cabei” resolvia o meu problema.

Depois que aprendi a limpar a minha própria bunda, a vida passou como um pum desenfreado e sem aviso, que marca o território com o mau cheiro que sai das entranhas. E foi na adolescência que as minhas merdas pareciam ser de outro planeta. Eram extraterrestres que desbocavam pelo vaso e não iam embora de jeito nenhum. Não tinha como esconder as cagadas feitas fora de casa. A vida entregava todas de bandeja em pratos sujos e imundos para eu lavar.

Aos 25, a neura de cagar no trabalho era tão grande que eu suava frio quando algo não me caia muito bem e queria se livrar do meu corpo feito água de barro. A tensão era tão grande que qualquer movimento sorrateiro podia ser o fim da minha imagem de pessoa que não fazia bosta na vida. A desconstrução do personagem que eu mesmo havia criado ao longo dos anos era a vergonha mais assustadora que existia.

Com a vida mais ou menos trilhada e muitas cuecas marcadas de vexame, os 40 exigiam menos bosta no horário comercial. Cagar mesmo só era possível no banheiro de casa, no único horário que ninguém me enchia o saco e eu lia o meu jornal. Mas claro, quando o intestino funcionava, o que era raro devido à pressão do mundo sob o seu estômago.

Dureza a vida, não? Mas é a única coisa dura na minha atual fase: àquela que antecede a morte. A bosta mole se torna algo frequente, pois os alimentos são recusados pelo meu aparelho digestivo. E o pior é saber que a sujeira e as fraudas geriátricas comprovam que estou encerrando a minha vida de merda da forma mais deprimente: com um desconhecido limpando o meu bumbum caído, murcho e que ninguém quer apertar, nem cheirar.

As dores de Luiza

Texto inspirado no curta 'He took his skin off for me'
Texto inspirado no curta ‘He took his skin off for me’

Ela havia morrido várias vezes por dentro. Em pouquíssimas ocasiões, o coração saiu ileso, o que é raro para uma mulher que vive intensamente todas as suas relações na vida. Quando criança, o seu primeiro amor não correspondeu ao singelo beijo atrás do escorregador. Gritou, cuspiu no chão e disse que meninas eram estranhas. Na adolescência, aprendeu que garotos podem ser estúpidos e que não devem ser levados a sério. Esqueceu rápido. Sofreu com as dores no peito. E, desde então, tem sido doloroso carregar o fardo de uma pessoa com vivências profundas. Mas mesmo assim não deixa de viver.

Dessa vez, o problema era externo. Luiza tinha feridas nos braços e nas pernas, arranhões espalhados pelo rosto e cortes que não cicatrizavam na barriga. Então, decidiu ir ao médico para tentar fechar as pequenas brechas.

Antes de entrar no consultório, uma palpitação forte já demonstrava que aquele seria um momento decisivo em sua vida. Subiu as escadas ao invés de usar o elevador para espaçar mais o tempo entre ela e o médico. Corredores frios e com pouca luz, porta branca. Entrou e todos te olharam. Com a mão, secou o suor que escorria pela testa. Deu cinco passos, entregou os seus documentos a secretária que nem ao menos te olhou nos olhos. Respirou fundo. Balbuciou o seu número de telefone e as borboletas que voavam dentro do estômago saíram pela boca em direção às janelas que ficavam no alto e te causavam claustrofobia. Libertou as entranhas e encheu-se de ar e vazio, algo que não gostava muito de fazer, mas que era necessário.

Na sala pequena e de acesso restrito, o médico questionou os hematomas e Luiza começou explicando que a sua mãe havia arranhado o seu rosto com insultos por ela ter mudado de emprego. E quanto mais ela gritava, mais marcado ficava. Espantado, o senhor grisalho perguntou se outras pessoas haviam lhe feito mal. Com os olhos marejados, Luiza colocou as mãos sob a barriga e falou que as cicatrizes foram causadas por Henrique, o ex-namorado, que insistia em dizer que ela estava gorda. Ele reclamava da alimentação desregulada, da falta de disposição para exercícios físicos e da sua paixão por brigadeiro de panela, sofá e filme. O rapaz esbravejou até as tripas da garota vazarem pelos buracos abertos no estômago. A dor intensa só foi amenizada quando o silêncio se interrompeu. Mas já era tarde, o amor havia vazado.

Por fim, a moça mostrou as feridas espalhadas pelo corpo e explicou que cada uma delas tinha uma história: um bom dia não correspondido, um telefonema de cobrança do banco, uma meta que não havia batido no emprego, um emprego que exigia mais do que ela gostaria de oferecer. O médico, então, prescreveu o tratamento: retirar toda a pele morta para ela mostrar ao mundo os seus tecidos encharcados de sangue puro, pulsante e que vibrará de forma intensa todos os momentos que irá viver a partir daquele dia.

Carta aberta ao grande amor da minha vida

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Uma das coisas que mais admiro em você é a sua capacidade de ir. Confesso que ainda me assusto com o seu jeito desprendido de levar a vida, mas acho lindo ver você dançando conforme a música. Se a batida é forte, você se assusta, mas aprende a dançar; se é lenta, você se incomoda porque precisa de emoção. Sagitarianos, tão previsíveis com o modo autentico de seguir em frente, sem amarras, sem malas, sem olhar para trás. Sem medo de ser feliz. Só não aceita ficar parado. Fixo. Estático. De resto, o sagitariano encara tudo, até tapa na cara.

O que mais admiro em você é a sequência de tropeços vividos com sorrisos no rosto. Rir de si mesmo talvez nunca tenha sido um problema. Você aprendeu rápido a viver o lado chato da vida adulta. Encarou cada problema de frente. Encarou até mesmo estirado no chão os tombos caídos. Gargalhou e não deixou-se abalar.

Minto.

Se abalou muito em cada situação desagradável que viveu. Sofreu porque não é dessas que vive no raso. Cada encontro, um mergulho de cabeça. Cada onda despercebida, um desencontro. Já se afogou em tanto sentimento depositado nas mãos dos outros. Sim, já se afogou até na forma literal. Quase te perdi. Sobreviveu: ao mar revolto de água salgada e ao mar da vida, que na forma figurada traz várias marés ao longo do dia.

O que mais admiro em você é essa intensidade aplicada a tudo na vida. Nada tem que ser sem importância. Tudo precisa de bastante sentimento. Te admiro tanto pela força, pela garra, pelo amor e por desistir… Desistir é uma coisa tão difícil de fazer. Tem quem diga que isso é para os fracos. Eu discordo porque sou alguém que tem medo de abrir mão das coisas que me fazem mal. Não tenho coragem, mas aprendo com você a, pelo menos, tentar desistir daquilo que não faz sentido.

O que mais admiro em você é a sua capacidade de voltar.

P de praia todos os dias

Agenda telefônica atualizada:

Amor

Bunda

Caralho

Domingo

Energia elétrica ❤️

Fuga 

Gargalhada

Hostel

Imagem em boa resolução 

Jantar

Karol Conka

Lugar desconhecido

Mochila

Nômade, um desejo

Ovo frito de manhã

Praia todos os dias

Queijo quente

Rafael, mais por mim/menos de mim

Sossego 

Ticket Refeição 

Upgrade 

Vinho

You

Xuxa está de volta

What?

Zaralha

O amor de todos os santos

 
Sentir frio, que antes fora um prazer, passou a ser tormento após sentir o sol ardente de Salvador. O calor físico e humano do nordestino encheu o coração frio daquele que já estava acostumado com paredes cinzas e dias chuvosos. A morada em seu ser agora é de gente com melanina acentuada. A pele avermelhada e levemente dourada mostrava que a sua felicidade só se tornava completa quando encontrava o mar pelas manhãs, quando sentia os raios ultravioletas invadir cada poro gelado da sua vida dura. Felicidade era sentir a brisa do vento no rosto misturado com grão de areia da praia. Até o amor relatado na literatura brasileira que vem do povo de lá estava vivo em seus grandes olhos castanhos claros. A paixão pelo moreno alto de sorriso largo, pelo povo de dentes branquíssimos, pelo cabelo encaracolado estava saindo das faíscas do seu olhar. Sentir aquele calor em seu coração parecia ser o sentimento mais puro da vida. Amar os detalhes coloridos do terere da menina era perceber que voltará a ser criança. Os dedos cheios de azeite de dendê e leite de côco eram lambidos sem pudor. O doce muito doce da cocada era saboreado com delicadeza. A vida de subir ladeira e se desviar dos buracos no Rio Vermelho eram mínimas perante a beleza da Bahia de Todos os Santos. A paz, que só conhecia na teoria, talvez seja bem parecida com a calmaria no andar dos passos curtos… E quando menos percebeu, estava correndo pela escada rolante, se irritando com a demora do metrô e sentindo um indescritível prazer ao fechar a porta do banheiro da sua casa. Bem-vindo a São Paulo!

Não é falta de educação, é timidez

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Ilustração: Russ Mills

Paulistana é uma menina que morreu sem respostas. Disse bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e de nada mas ninguém respondeu. Nem o porteiro do prédio, nem o cobrador de ônibus e muito menos o colega de trabalho. Recebeu silêncio e cara feia na maioria das vezes. Ninguém queria saber de papo. No vácuo das suas tentativas existiu apenas frustração.

E ela nunca se acostumou. Sempre insistiu no sorriso de poucos dentes para não assustar, mas mesmo assim, todos a ignoravam. Mudou de tática e passou a adotar o riso amarelo, com pouco entusiasmo e coração cheio de amor para dar. Nada. Ninguém se quer notava a presença de Paulistana.

Num dia de inverno, de ruas cinzas e com sol ardente, viu a tão sonhada oportunidade de abraçar o mundo bem apertado. Avistou na saída do metrô um velho amigo. Subiu as escadas de dois em dois degraus para chegar mais rápido. Colocou no rosto o sorriso mais lindo, as covinhas mais profundas e o olhar mais amoroso que tinha para oferecer na ocasião. Chegou no topo, gritou a sua celebração e recebeu uma atitude envergonhada. O amigo, que havia se contaminado pelo vírus da vida, deu às costas em troca.

Paulistana ficou boquiaberta e com os olhos marejados. Perdeu a esperança e a vontade de tentar encontrar respostas aos seus bom dia, boa tarde, boa noite, obrigado e de nada. Paulistana então decidiu usar, dali em diante, o artifício da timidez como justificativa para a falta de educação. Morreu junto da maioria.

O carteiro de notícias ruins

Por: Maleonn
Foto: Maleonn

O pior emprego do mundo é o de carteiro de notícias ruins. Cabe a ele dizer aquilo que ninguém tem coragem de falar. Na descrição do seu trabalho estão funções como informar o falecimento de mães, pais e avós, confirmar que ex-namorados seguiram com as suas vidas e avisar que o serviço de alguém não é mais necessário na empresa. Anunciar as piores notícias do dia é uma tarefa que machuca antes, durante e depois da repercussão dos fatos. O sofrimento que corrói as entranhas é tão grande que ele morre um pouquinho a cada dia até proferir todas as sílabas. E o carteiro não sabe a melhor forma de dizer a coisa certa. Notícias ruins nunca chegam em boa hora.

Pensar minuciosamente em palavras leves e criar um discurso elaborado são pura perda de tempo. A dor não tem amortecedor. Ser direto e duro também não é possível, pois o amor do carteiro é muito grande e ele não quer que a morte do sentimento gerado no peito seja trágica. É duro aguentar o dia chuvoso, o cachorro com raiva e a ansiedade que antecede aquele momento.

Ao apertar a campainha, a primeira vontade é sair correndo ladeira abaixo para não ter que vivenciar o dilema. O choro previsto em quase todos os casos é de cortar o coração. Enquanto os segundos passam, secretamente o carteiro quer apenas finalizar as suas entregas. “Olá, pois não?” “Aqui é o carteiro. Você pode receber uma notícia ruim?”.

Os dedos suam, o coração gela e o carteiro diz frase por frase de forma doce, firme e com todo o cuidado possível. No meio da sua ladainha, o choro é livre, o grito é permitido e o drama não é levado em consideração. Tudo pode acontecer naqueles instantes. Inclusive o silêncio. Receber as piores notícias e fechar as portas como se nada tivesse acontecido é uma escolha. Ninguém sabe o que esperar nesses casos.

O sofrimento é diário e não tem fim. O carteiro de notícias ruins volta para casa todos os dias pensando sobre a sua carreira. Ele sabe que está fazendo o trabalho direito, mas busca incansavelmente formas de aliviar a dor. E não encontra a solução, além da certeza de que bons ventos sempre chegam.

O mar

Eu não voltei do almoço porque decidi que aquela era a melhor hora para ir a praia. Almocei no restaurante de sempre. Comida mediana, mas que me sustenta e eu posso pagar. Dessa vez fui sozinha. Consegui me livrar das meninas chatas da contabilidade. Durante a refeição, me veio uma vontade imensa de enfiar os pés na areia e sentir os meus dedos afundarem, sumirem e ressurgirem num movimento repetitivo e incansável. Eu queria era sentir a brisa no rosto, ouvir o assovio do vento e me desligar do mundo. Parei o meu almoço no meio, larguei duas notas de 20 reais embaixo do prato e sai correndo para pegar o primeiro ônibus para o litoral. Tomei a decisão sem pensar muito nas consequências porque aquele era o momento de sentir o mar invadir os meus poros. O ônibus chegou mais rápido do que o meu arrependimento por ter tomado uma decisão madura para a minha alma. Entrei e pedi para o motorista ir rápido. O meu coração não aguentava de tanta ansiedade. A sensação era tão libertadora que não me importava por estar indo a praia de salto e laquê. O tempo passou num piscar de olhos e quando ouvi o vendedor de sacolés foi como música entrando em meus ouvidos. Desci apressadamente, com os sapatos nas mãos e os cachos derretendo por causa da maresia. Respirei o ar puro da sensação de estar fazendo a coisa certa. Meus dedinhos gritavam no calor do asfalto e eu corri até a areia. Afundei. E cada vez mais tinha a certeza de que a mulher burocrática que vive em mim sentia o delicioso prazer da transgressão escorrer junto do suor do rosto. Uma euforia tomou conta de mim e eu me joguei no chão para fazer anjinhos de areia… Acordei. Em frente ao meu computador. Numa segunda-feira à tarde interminável. E me dei conta de que a mulher dos meus sonhos é muito mais interessante do que a que vos escrevo. Fechei os olhos novamente.

O velho

Foto: Lucas Incas

Você é sujo, mas se formos olhar para dentro de nós ninguém é tão limpo assim. Das vezes que cruzamos o mesmo caminho, senti um cheiro não muito agradável: o meu, claro, pois o seu com apenas um banho resolve. A cerveja barata na mão é sagrada, quase um ritual. Lata vai, lata vem e de hora em hora eu me aproximo da janela para te observar. Enquanto tento acompanhar os seus movimentos imprecisos, fico imaginando o que te levou até a sarjeta.

Talvez você tenha tirado o sustento das estradas e, vez ou outra, depositava um trocado nas mãos da preta que cuidava dos rebentos que nunca foram muito seus. Pelos cantos do vasto chão de poeira, você se divertia com aquelas com quem se deitava antes de seguir pelo asfalto. Um dia seguiu e nunca mais se encontrou. Ou você foi um comerciante de rua. Tirava do potencial vocal o dinheiro para dar de comer a família. Do alimento que a terra dava, você conseguia comida aos pequenos e grana para uns industrializados no domingo. Um dia não aguentou as tradicionalidades. Não gritou mais.

Apesar dos julgamentos, do alto da minha janela, imagino que o dia a dia das ruas não seja fácil. Porém deve ser libertador saber que ninguém se importa muito com a sua vida, a não ser pela sua aparência não tão agradável. Retorno ao sofá e fico pensativo sobre a minha vida invejável, de moldes em que tento me encaixar mesmo sabendo que braços, pernas e mente ficam de fora. Quem eu quero enganar? Rrum… Não tenho coragem de abandonar a minha vida mesquinha. Já você, que me parece superior agora, segue a vida exalando verdades.