O encontro

Sai cedo para caminhar pelo Bario Sur, em Montevideo, e pela rambla onde o rio encontra o mar e eu me encontro. E que encontro! Percebo que o vento gelado no rosto me agrada pela primeira vez em dias. Quem me conhece, sabe: eu odeio o frio, mas até que estou gostando. Talvez seja porque me sinto em casa.

A morada não é São Paulo, mas é como se fosse. Creio que a sensação de estar em casa se deve as semelhanças com a minha cidade cinza (vermelha, laranja, amarela, verde, azul e violeta – ah sacou?! sacou?!), e por estar vivendo em outro país. O mundo agora também é a minha casa.

Por isso, não tenho vontade de voltar porque já estou onde eu sempre desejei estar: ao vento, às ruas, aos caminhos e dentro da minha mochila. Dentro de mim!

Montevideo tem vida! E isso se explica pela proximidade arquitetônica com São Paulo. Falo isso não conhecendo nada de arquitetura. Mas sinto São Paulo. Cheiro São Paulo. Toco São Paulo. Percebo as pessoas levemente apressadas. Gente querendo chegar em algum lugar sem olhar muito ao redor. É gente de cidade grande, que vive em metrópole pequena, mas pensa alto.

A capital uruguaia é cercada por pessoas que fazem a diferença. Ou pelo menos que fizeram para mim. Inclusive já consigo manter diálogos longos em espanhol. Médios para ser mais preciso. É tão bom se sentir em casa. Se sentir no mundo.

Relatos selvagens não tão selvagens assim

As primeiras palavras que flutuam na minha cabeça já são em espanhol. Logo, quando as coloco para fora, vira um portunhol capenga, mas quando sou surpreendido, é português que eu falo mesmo. É engraçado que ensaio várias frases na minha mente antes de levantar da cama e geralmente consigo utilizá-las ao longo do dia.

Por fora aparento estar cercado de dúvidas; por dentro só tenho a certeza de que fiz a escolha certa. Me tornar um workaway (pausa para explicação: me cadastrei em um site de work exchange, que é aquela pessoa que troca moradia e alguma alimentação por trabalho. no caso, uso o www.workaway.info e vou viajar pela América Latina, mais precisamente pelo Uruguai e pela Argentina), voltando: me tornar um workaway me trouxe a uma realidade totalmente diferente da minha para me conhecer melhor. Talvez o grande desafio seja viver o caminho como se não houvesse linha de chegada.

E aqui estou tentando. Já fiz compostagem, cavei buracos, plantei árvores, limpei jardins e colhi sementes. Também conversei com arbustos, cuidei da terra como se fosse alguém próximo e sorri todas as vezes que a Colli, o Lunes e os outros cães fizeram festa ao me ver. Inclusive, teve um dia que estava meio chateado e a linda da Colli não me deu sossego até eu parar o meu trabalho para fazer carinho. Mal sabia ela que o carente de atenção era eu e não ela.

Além disso, minhas mãos ardem, meus braços doem e a parte interna da coxa que a gente mal consegue exercitar na malhação está fisgando. A academia aqui é intensa, mas a siesta a tarde é longa. Faz muito frio e os meus agasalhos não são o suficiente. Ganhei um blusão do meu anfitrião para me aquecer. Também ganho várias cambucas da melhor sopa já cozida na história. Saudações a querida Marianela, que hoje está fazendo uns bolinhos de legumes que estão cheirando daqui. No mais, o doce de leite uruguaio é o meu deleite diário. Cada colherada, uma ida ao céu. Em contrapartida, presentei o casal que me hospeda com paçoquinha. E adivinha? Outra ida ao céu.

As horas passam e eu não me preocupo. Parece que o acelerador que é implantado embaixo da pele quando você chega em Sâo Paulo foi desligado. Aqui, na fazenda, a lei é clara: devagar e sempre – alô Haddad. Durmo mais cedo do que antes, acordo com o barulho do vento anunciando o dia que vai raiar. O sol demora para aparecer, mas quando ele acorda, eu já estou em contato com a terra.

Estou muito cansado, mas por dentro, a minha alma transborda de alegria e amor. A felicidade por estar vivendo em pleno estado de mudança me mantem vivo.

O que o Persan de 3 anos atrás precisava saber

Vamos organizar algumas coisinhas aqui:

  • Os pisos do boxe podem quebrar. Eles levantam, racham e a água acumula fazendo uma pocinha. Tem que trocar e o seu pai não estará em casa para te ajudar;
  • A torneira da pia vai ficar gotejando às vezes e é preciso trocar uma borrachinha. Seu pai, novamente, não estará em casa;
  • Faça amizade com o zelador e seja gentil. Ele será o seu novo pai no quesito “marcenaria, eletricidade e ademais”;
  • As lâmpadas de casa queimam quase que de forma orquestral. Alguns cômodos ficaram no escuro porque almoçar é mais importante do que energia elétrica. Lâmpadas são caras, mas compre-as;
  • O seu estômago vai doer assim que você pisar o pé em SP. Veja essa gastrite aí e não adianta tomar somente remédio; é necessário mudar a alimentação;
  • Café, chocolate, limão, laranja e tudo que você ama causa gastrite. Não seja radical, apenas diminua a quantidade;
  • Não foi à academia? Compense na alimentação durante o dia e não se cobre tanto;
  • A garganta vai fechar do nada e a sinusite vai atacar com frequência. Isso não tem a ver apenas com o tempo seco; é possível que seja estresse;
  • Não esquece do fio dental senão dá gengivite e isso é foda;
  • Pare de se culpar e pare de achar que a sua vida é uma bosta. Segura o seu reggae e vai;
  • Plantas morrem e comida na geladeira estraga. Você não precisa se sentir a pior pessoa do mundo quando isso acontece. Aprenda com os seus erros;
  • A conta bancária vai ficar negativa às vezes. Se isso acontecer sempre, aprenda a mexer no Excel e controle os seus gastos. Preze por uma vida financeira saudável;
  • Empréstimos são necessários na hora do desespero. Pague-os;
  • Infelizmente é preciso cancelar a TV a cabo por conta do preço, mas a NetFlix é sua amigona nos domingos à noite;
  • Faça o seu próprio almoço e aprenda a cozinhar legumes;
  • Coma frutas. Isso é muito importante;
  • Reduza a carne vermelha, diminua a quantidade de álcool e não coma hambúrguer sempre. Seu corpo agradece essas ajudinhas;
  • Já disse pra você não se cobrar tanto? Ótimo, não se cobre tanto;
  • Faça cursos diversos e invista em algum idioma. Nossa, é fundamental aprender um idioma novo;
  • Visite os seus pais no interior mesmo que seja uma missão impossível. Eles sentem a sua falta e você sente a falta deles;
  • Tenha maturidade e saiba escolher o melhor momento para se ter um cachorro ou um gato. Mas tenha porque isso te ajuda nos lances de responsabilidade etc.;
  • Valorize as suas amizades e não cobre a presença das pessoas em seus eventos. Isso é chato, porém, esteja presente na vida dos mais próximos, mesmo que online;
  • Envie uma mensagem dizendo que está com saudade;
  • E ah, muito importante: leia bastante, desencana um pouco do celular e vá aos parques. Isso é muito bom!

De resto, você sobrevive!

Carnaval com catuaba

O carnaval é a melhor época do ano para você acumular histórias, ganhar experiências, vencer desafios, alinhar os chakras e transformar notas de R$ 2 em porres homéricos.

Carnaval 1.jpg

No primeiro ano em que me diverti de verdade eu tinha 17 ou 18 anos e, como bom taubateano que sou, enfrentei o sol escaldante de São Luís do Paraitinga. Que carnaval maravilhoso foi aquele do “Juca Teles, amora em flor, boca do povo são palavras de amor”. Na época, eu tinha dinheiro sobrando, uma latinha de cerveja resolvia o meu problema e eu estava dentro do armário. Logo, só cantar as marchinhas e comer churrasquinho já me fazia feliz.

Antes disso, passava os meus carnavais nos retiros da igreja. Isso não é de todo ruim, pois naquela época fazia sentido estar ali louvando ao senhor. Mas que bom que essa fase acabou, não é? Porque eu sempre fui fã de Axé Music e batuque e precisava desfilar o meu corpinho na rua.

Aí, veio a faculdade, São Luís perdeu a graça e o carnaval se resumia em filmes, brigadeiro e dias em casa descansando. Mentira, eu sempre ia pelo menos um dia para São Luís e lembro da vez que bebi, bebi, bebi e nada me aconteceu. Resolvi tomar um shot de 51 com os meus últimos R$ 2. Fiquei deslocado, me perdi de todo mundo, saltava mais do que a Fabiana Murer (quando bebo eu fico pulando) e achei que haviam roubado o meu celular.

Carnaval 2.jpg

Me formei e com isso veio o desemprego, porém, eu tinha R$ 50 na manga que fizeram a minha vida. Partiu carnaval: garrafa de catuaba e inúmeros pedidos de gelinho para o marinheiro. Pronto, nada mais importava e eu com uma amiga sentamos no meio da ponte durante o bloco para comer um pacote de bolacha (é biscoito?). Depois morri no gramado e quando acordei estava louco por Coca-Cola e Doritos. No fim do pacote, eu fui virar o farelo na boca segurando a latinha de refrigerante e levei alguns segundos para perceber que estava tomando um banho. Foi lindo!

Nos últimos anos o carnaval tem sido em São Paulo, onde é sempre cheio de amor e bebida barata. Mas agora tem adendo: glitter bomb na cara e muito close na avenida.

Carnaval 3

 

Alerta e-mail indesejado

Sou dessas pessoas que confere no mínimo 5 vezes os destinatários de e-mail e o texto escrito antes de enviar. A mania vem de algumas experiências ruins com a ferramenta e outras trágicas que me contaram por aí.

Gatos viciados em computador07

 

Certa vez, uma chefe falou que o fornecedor era bem filho da puta com todo mundo em cópia, inclusive o dono da gráfica. Em cinco minutos, o pior: veio o pedido de desculpas mais dramático e culposo do mundo. Coitada, ela sofreu porque não era dessas que falava da mãe dos outros. Era só um momento de raiva.

Também teve a vez que uma amiga deixou bem claro que não queria mais realizar trabalhos com a professora desorganizada. A educadora também estava em cópia. Ela recebeu as desculpas esfarrapadas, mas sem o constrangimento do responder a todos.

No meu caso, apenas pequenos delitos: troca de pessoas em cópia, respostas meio atravessadas para clientes que sofrem de eterna insatisfação ou apenas envio de arquivo errado, além do clássico segue em anexo sem o dito cujo inserido. Mas é superável! Às vezes rola um GIF da Beyoncé para uma pessoa mais conservadora ou, como no caso do meu namorado, uma animação da Gretchen para vários diretores e superintendentes de uma das maiores universidades do Brasil. Coisa leve e despojada só para quebrar o gelo – claro, ele não viu que os caras estavam na CC.

tumblr_inline_nkncwhGAQe1s3cc8n

Falando em constrangimento, uma outra amiga saiu do armário para o pai via e-mail. Não, ela não apertou nenhum botão, apenas deixou logado o Hotmail no computador do pai. Sem querer. Ele, na intenção de descobrir o que estava acontecendo com a filha, leu uma troca de e-mails entre amigos na qual ela detalhava intimidades sobre gostar de garotas, transar com garotos, descobrir o que é bom e o que é ruim na cama e os primeiros amores. Sim, isso é muito foda porque agora o pai dela sabe que ela transa. E que já experimentou várias coisas.

Por fim, a minha história preferida. Numa tarde qualquer, uma assessora descontente com o trabalho e levemente desequilibrada, recebeu certa demanda. Refação, sabe? Ela, que estava muitíssimo insatisfeita, realizou as alterações com primor e enviou o documento revisado para o cliente. Na cópia, o chefe e todo o time de atendimento; no corpo do e-mail, a seguinte oração: “Olá, fulana. Segue mais um pastel de carne para aprovação. Atenciosamente, ciclana”.

escrevendo

Sim, isso realmente aconteceu. Não é invenção! Duas semanas depois ela foi despedida, mas para mim, fica todo o respeito pela coragem e pela audácia.

A carteira de motorista

Quando você completa 18 anos, quer três coisas na vida: entrar na balada, comprar cerveja sem burlar a lei e tirar a carteira de motorista. Então, em meados dos anos 2000, atingi a maioridade e fiquei esperando dos meus pais a grana da habilitação. O que eu recebi? N-A-D-A. Nem ajuda de custo. Porém, sou leonino e me vinguei – veja como mais adiante.

IMG_8283
Olha esse cabelo!!!?!?

Após superar a decepção, juntei o dinheiro, me matriculei na autoescola, fiz a parte teórica e fui para a primeira aula prática. A minha felicidade era tanta que acabou igual barra de chocolate. Em 5 minutos, fui contornar a rotatória, subi na guia e arranhei a lataria. Na quinta aula, deixei o carro morrer na rampa de frente e ele desceu. Numa avenida movimentada. Com vários veículos atrás. Quase bati, mas o meu instrutor puxou o freio de mão na hora. Acidentes acontecem, não é mesmo?

Depois de 15 aulas práticas, 4 extras, parti para a prova.

Coitado de mim. O resultado foi uma reprovação na rampa de frente. Como era bem cedo, não tinham carros na rua, mas havia um caminhão estacionado e eu quase deixei os veículos rasparem. Mas deu tudo certo. Bem, quase tudo!

Com força na peruca e no cabelo que ainda me restava, fiz 2 aulas extras pagas pelo meu pai (início da vingança) e parti para a prova. Muitos não admitem, mas quase todos os meus amigos só passaram na segunda tentativa. Mas eu, que aprendi desde moleque a não ser igual a todo mundo, reprovei na rampa de ré. Pelo menos foi diferente dessa vez.

Terceira prova. Mais duas aulas extras (pagas por quem? Sim, pelo meu pai) e nada. Dessa vez eu não saí nem da baliza e derrubei o cone/poste/vassoura que você usa para marcar a entrada e a saída. Desisti e não quis mais tentar.

Passado quase 9 meses, recebi uma ligação da autoescola informando que tinha apenas 1 mês para realizar a prova, senão o meu contrato caducaria e eu teria que começar tudo do zero. O peso da grana investida doeu e decidi enfrentar esse medo. Tomei maracujina, paguei algumas aulas-extras (dividi com o meu pai o pacote de aulas, olha só que bonzinho) e fui.

Parei na baliza. De novo!

Prestes a me jogar na Dutra, os meus pais discursaram sobre persistência ou algo assim e pagaram algumas outras aulinhas já que alguns amigos, que me ofereceram ajuda, desistiram com medo quando eu perguntava qual era o acelerador e qual era o freio, hahaha.

Motivado e na companhia da minha mãe, fui para a prova. Baliza, check. Rampa de frente, check. Rampa de ré, check. Carteira de habilitação nas mãos após 5 tentativas, check, check, check.

Quantas vezes eu a usei? Nenhuma porque não sou obrigado a passar por situações de constrangimento na vida.

Festa da firma

A festa da firma é um dos melhores momentos do ano para o proletariado brasileiro. É nela que você descobre as verdadeiras facetas de cada um. Ou é quando o seu lado mais idiota e tosco se amplifica. Talvez seja melhor amplificar do que as pessoas descobrirem que o seu jeitinho recatado é apenas no ambiente de trabalho. Porque sim: toda festa da firma rola o despirocamento geral do ser humano que passa o ano todo na labuta.

Eu tenho experiências ótimas nas festas de todas as agências em que participei. Claro que nas primeiras só observava o povo colocando as manguinhas de fora. Depois fui eu, claro. Na verdade eu não coloquei as manguinhas, eu praticamente arranquei as mangas, a gola, os botões da camisa florida e quase fiquei pelado. Mas isso eu conto lá embaixo 😉

 

Acampamento_Paiol_Grande_061213_261
Eu sempre puxo as pessoas para dançaram É o tchan

Lembro que uma das primeiras festas de fim de ano que fui eu era novo na agência. Foi numa casa muito sofisticada em um bairro nobre, com piscina, orquidário, 20 banheiros, 40 quartos etc. Chiquérrima! A anfitriã era uma senhora elegante do administrativo, que falava bonito e sempre contava suas histórias de quando morou na África. Na ocasião, eu estava tendo contato pela segunda ou terceira vez com the boss, pois ela morava fora a maior parte do tempo.

Pensa numa mulher séria, elegante e tradicional? Apesar de todo o ar soberano, ela era uma pessoa normal. Que veio de ônibus. Por 3 horas. Com um trânsito cagado. Na véspera do Natal. Com o ar condicionado quebrado. Muito calor. Ela nunca se atrasou na vida. Até essa ocasião. Óbvio que ela chegou muito puta e começou a narrar a história acompanhada de vinho branco.

Ela mal bebia.

Ela não tinha comido nada antes.

Então, realizamos o amigo secreto e ela não largava o vinho branco. Do nada, ela sumiu. Foi ao banheiro e de lá não saiu porque passou muito mal. Tivemos que ir embora porque senão ela não sairia de lá. Foi bizarro e desde então não tive mais medo dela. Porque eu tinha!

Também teve aquela vez que eu estava desanimado e disse ao meu namorado que iria ficar um tempinho na festa e depois iria embora. Tinha caipirinha free e o abacaxi estava muito bom. Tomei 7 ou 8 copos. Acabou e eu parti para a cerveja. Aí, fiz amizade com o DJ porque eu sou desses que adora fazer amizades em festas e comecei a pedir os clássicos do É o tchan e do Rouge.

Cheguei à minha casa às 10 da noite, mas na verdade eram 2 da manhã e se riscassem um fósforo no quarto, eu pegava fogo.

Um adendo: nesta mesma festa, cuja temática era verão, uma mocinha se empolgou com os picolés e simulou diversas vezes isso mesmo que você está imaginando. Além disso, antes do evento, ela testou as cadeiras de praia no colo de um mocinho.

Dois adendos: Também teve o rapaz que decidiu sentar no cooler de isopor e isso com certeza deu catástrofe e enchente de gelo na pista!

adore-party
PARTY BITCHES!

Outro momento marcante foi quando decidiram realizar a festa da firma fora de São Paulo. Meus amigos, pelo bem da integridade humana, não façam isso.

No esquema excursão, fomos de ônibus para um acampamento na Serra da Mantiqueira. Lá, ficamos parte do dia na piscina sem bebida graças a deus, depois participamos de umas dinâmicas e brincadeiras. À noite, fomos para um combo comida boa + comida frita boa + comida frita e salpicada com queijo dos deuses boa + cervejinha. E vodca. E mais cerveja, mais vodca e mais uns lances aí!

Eu fiquei descalço. Depois abri um botão da camisa. Logo, decidi que iria apertar a bunda de um amigo. Depois, apertei a bunda de uma amiga. Aí, me desafiaram a apertar a bunda do estagiário mala. E quando percebi estava apertando a bunda de todo mundo.

Na época, o auge da música era Show das Poderosas, da Queen Anitta. Começou a tocar na pista e me esqueci do aperta-aperta. Embalado pela música, fiz uns passinhos e apertei a bunda de nada mais nada menos que da diretora da agência, que não sabia o meu nome até aquele momento.

Perdi a compostura e se não fosse o bom coração dessa senhora eu também perderia o emprego.

giphy
Dance, dance, dance!

Morri meia hora depois numa cama quentinha. Mas as pessoas não. Rolou desde marmanjão engatinhando até gente que nunca havia bebido na vida gorfando o quarto todo. Foi épico!

No dia seguinte, no café, de óculos escuros e fingindo que não conhecia ninguém, ouvi da senhora dona da agência: “Se divertiu ontem hein, Persan?”

Nunca mais nos falamos.

Waacking experiência, meu amô

Pedrinho ‘fazia da vida o que a gente sonhou, pintava do nada um barato, falava umas coisas que a gente nem pensou’. Ele é ‘tão criativo, auto-confiante, um cara cortês’. Na teoria, o Pedrinho da canção homônima da cantora Tulipa Ruiz é bem parecido comigo (link aqui). Mas na prática, a história é outra.

Na teoria eu sou bem resolvido com a minha nudez, com o meu lado afeminado, comigo. É muito tranquilo para mim ficar dentro de um shorts curto, de uma camiseta gola V que vá até o umbigo. É relax usar uma capinha de cachorro amarelo com orelhinhas marrons e focinho. Sou super de boa em relação a maquiagem ou a me expor por meio da dança.

Waacking
Formatura do 2º Ciclo de Waacking (Diana)

Na prática, não. Quer dizer, não era. Talvez eu ainda tenha problemas ao longo do caminho, mas graças aos acontecimentos dos últimos meses, algumas coisas mudaram.

Recentemente, eu me inscrevi num ciclo de aulas de Waacking. Para quem não sabe, o estilo é uma das diversas ramificações do Street Dance e consiste em movimentos rápidos com as mãos, os braços, um pouco de quadril, um cadinho de pernas e música babadeira. A dança nasceu nas baladas gays de Los Angeles, na década de 1970, dentro dos conceitos do Locking (estilo de dança funk e de rua muito espelhada no movimento teatral). Resumindo: é lacre do começo ao fim ao som de Diana Ross, Glória Estefan, Donna Summer e qualquer música com boas batidas e doses cavalares de drama.

Matriculado, fui à primeira aula e quis desistir no meio. Sou muito desgovernado com as mãos, porém não gosto de parar aquilo que começo. Enfrentava as dificuldades e quase morria todas as aulas. Era cansativo e ao mesmo tempo desafiador. Eu precisava viver essa experiência.

Sim, para mim as aulas não eram simplesmente sobre dança. Era uma experiência social, cultural, política e tudo aquilo que vem no pacote do movimento. Cada braçada que eu acertava, comemorava internamente. Mentira. Eu gritava! Ficava muito feliz por estar conseguindo.

E mais: durante o curso, tinha o momento terapia. Lembro da vez que o professor falou sobre a liberdade de sermos quem a gente quiser. Mas de verdade, saca? Ser livre para usarmos qualquer tipo de roupa, acessório ou maquiagem no dia a dia e não nos importarmos com a opinião do amiguinho. Na teoria, tudo lindo. Na prática, o Persan aqui não conseguia ser aquele cara que defende a liberdade do corpo e a não divisão de gênero para as coisas.

Mas deu certo. Mudou e hoje estou formada, meu amô. E arrasando nos bracinhos and sem dor muscular em lugares desconhecidos do meu corpo – outra vantagem: você balança tanto que descobre músculos novos, que nunca doeram antes, rs.

Waacking perfil
Rafael Persan veste turbante elaborado com uma calça jeans (projeto by me), casaco longo, vestido preto by Paula L. Paulos, meia calça laranja e botas… velhas. Make básica: glitter no bigode

Na prática agora, o que antes era teoria. Por isso, obrigado a todos os envolvidos na construção desse personagem que tem forma, corpo, estrutura, pensamento e ideais políticos: sermos como quisermos ser. E sermos livres.

Prazer, Persan Jones

Terça-feira, 29 de setembro, 21h29. Alguns quilos mais gordo.

Não está sendo fácil nem para a Kátia e nem para mim.

O Diário de Bridget Jones (filme)

Quando você mora sozinho e já passou por aquele período em que come tudo que vê pela frente – inclusive faz tempo que não vejo o Dico -, as terças-feiras à noite são bem difíceis. Primeiro: você já está há quase 48 horas se alimentando certinho, comendo carboidrato em pequenas porções, ingerindo bastante salada e frango grelhado no almoço, e evitando doces e frituras em qualquer momento do dia. Segundo: você já tem consciência de que se alimentar corretamente faz muita diferença para o corpo, a mente, a alma e qualquer parada internalizada dentro de você. E ter consciência de algo que é tecnicamente certo e querer fazer totalmente ao contrário é comigo mesmo.

E depois que se é adulto, você nem percebe mas faz bastante coisa no automático. Ou como eu gosto de dizer: no ritual. Sim, eu que sou uma pessoa metódica, funciono muito a base do ritual. E, como terça-feira sempre foi dia de Masterchef, internamente eu sabia que à noite poderia cometer excessos. Pizza, esfirra, misto quente com bastante queijo e maionese… E eles: o pão de queijo acompanhado do melhor cookie de baunilha com gotas de chocolate que existe na terra: o do Dia. Quem me conhece, sabe: sou alucinado por aquela porcaria – obrigado por me apresentar Eriket.

Viro criança quando reúno essas belezinhas. Gosto de intercalá-los e chuchar o biscoito no leite e depois tomar o leite, enquanto como aquelas borrachinhas industriais de queijo. Quando percebo, o adolescente que vive em mim e come qualquer porcaria surge e faz aquela lambança. Praticamente não respiro e, se não tivesse um pircing no septo, comeria pelo nariz também. É muito amor químico envolvido.

Mas a consciência chega quando estou quase no fim daquele processo ritualístico. Sabe, aquela culpa depois do MC Lanche Feliz com batata frita feita de 14 ingredientes processados e coca-cola sabor rato triturado? É isso. Eu começo a caçar as embalagens e fazer a contagem de calorias e sódio. Numa conta rápida, sobre dois, desce três e bingo: 1.577 calorias MIL QUINHENTAS E SETENTA E SETE CALORIAS INDO DIRETO PARA A BARRIGA e 2.039 DOIS MIL E TRINTA E NOVE MILIGRAMAS DE SÓDIO CIRCULANDO NA PARTE INTERNA DAS COXAS. Quase me afogo no leite sabor migalhas de cookie. É assustador perceber que todo o regime rigoroso realizado por 45 horas foram pelo ralo.

Me sinto péssimo e tenho vontade de sair correndo atrás da senhora, senhora gula volta aqui e devolve a minha vontade de vencer na dieta!

Quarta-feira, 30 de setembro, 7h34.

Correndo atrás da senhora dieta na esteira da vida e achando que vou conseguir perder os quilos a mais.

Reflexões sobre a vida de merda

Foto: Seu Lili - Terça Insana (divulgação)
Foto: Seu Lili – Terça Insana (divulgação)

A vida é uma bosta. Sempre vamos cagar nela. Quando eu era bebê, não conseguia controlar a merda que se esvaía por entre as minhas pernas. O leite materno entrava, me alimentava e eu cagava. Igual pomba. Bosta fedida para todo o lado. Foram muitas fraldas brancas para trocar e sorrisinhos inocentes para convencer a minha mãe que eu me sujava, mas tinha um bundão macio e que dava vontade de morder, claro, quando estava limpo e cheirando a talco.

Na infância, a cueca com elástico apertava as minhas pernas e o desafio era difícil: cagar sem ser nas calças. Fazer as próprias merdas e limpá-las era muito complicado. Nas primeiras vezes, eu me atrapalhava e não sabia por onde começar a lavação da bunda. Se a situação ficava preta, o “mãe, cabei” resolvia o meu problema.

Depois que aprendi a limpar a minha própria bunda, a vida passou como um pum desenfreado e sem aviso, que marca o território com o mau cheiro que sai das entranhas. E foi na adolescência que as minhas merdas pareciam ser de outro planeta. Eram extraterrestres que desbocavam pelo vaso e não iam embora de jeito nenhum. Não tinha como esconder as cagadas feitas fora de casa. A vida entregava todas de bandeja em pratos sujos e imundos para eu lavar.

Aos 25, a neura de cagar no trabalho era tão grande que eu suava frio quando algo não me caia muito bem e queria se livrar do meu corpo feito água de barro. A tensão era tão grande que qualquer movimento sorrateiro podia ser o fim da minha imagem de pessoa que não fazia bosta na vida. A desconstrução do personagem que eu mesmo havia criado ao longo dos anos era a vergonha mais assustadora que existia.

Com a vida mais ou menos trilhada e muitas cuecas marcadas de vexame, os 40 exigiam menos bosta no horário comercial. Cagar mesmo só era possível no banheiro de casa, no único horário que ninguém me enchia o saco e eu lia o meu jornal. Mas claro, quando o intestino funcionava, o que era raro devido à pressão do mundo sob o seu estômago.

Dureza a vida, não? Mas é a única coisa dura na minha atual fase: àquela que antecede a morte. A bosta mole se torna algo frequente, pois os alimentos são recusados pelo meu aparelho digestivo. E o pior é saber que a sujeira e as fraudas geriátricas comprovam que estou encerrando a minha vida de merda da forma mais deprimente: com um desconhecido limpando o meu bumbum caído, murcho e que ninguém quer apertar, nem cheirar.