Perfect Ilusion

Eu pensei que nunca chegaria à Bolívia. No final das contas, sabia que tudo isso que estava acontecendo era porque a Argentina não queria que eu fosse embora. Lá a minha vida virou de cabeça para baixo e eu mudei da água para o vinho ou da cerveja para o fernet coca. Tudo que eu vivi e compartilhei um pouquinho aqui com vocês, me fez uma pessoa diferente – aí que clichezera. Sim, bem clichê e brega do jeito que eu gosto. Enfim, vamos aos fatos.

Há 2 dias, uma forte chuva passou pelo Norte da Argentina e as estradas de Jujuy a Purmamarca estavam fechadas. Ninguém ia, ninguém vinha. Eu estava em Purmamarca quando isso aconteceu. Era o meu primeiro dia sem programação fechada: estava hospedado em Tilcara, um povoado pequeno, porém com mais estrutura que os outros ao redor. Sai cedo do hostel, não fazia frio tampouco chovia. Cheguei no terminal e escolhi a cidade da Sierra de 7 Colores que tanto falavam. Entrei no ônibus com um monte de turista e viajante. Meia hora depois, cheguei a Purmamarca junto com a chuva. Tranquilo, encontrei uma cafeteria com Wi Fi e esperei o tempo passar. Quando a chuva deu uma trégua, sai para caminhar e no meio do caminho, mais chuva. Resolvi voltar ao terminal.

Ninguém sai (meu óculos?, rs). Fiquei alocado com um monte de gente. Felizmente, saiu um ônibus 40, 50 minutos depois.

Cheguei em Tilcara e não havia energia elétrica. Não havia luz na Província de Jujuy inteira. Azar? Nada, estava devorando o meu segundo livro em espanhol e não queria mais largar Carrie, de Stephen King. Ela estava se arrumando para ir ao baile e mal sabia o que a aguardava.

A energia voltou tarde e a chuva parou. Estava desejando muito um dia seguinte de sol porque iria conhecer Humahuaca. 

Não fez.

Fui mesmo assim e junto do guia, chorei durante o trajeto porque ele me explicava o que acontecia quando havia chuva. Os alimentos não chegam. A gasolina não chega. A vida das pessoas continua mesmo assim e percebi, mais uma vez, que eu preciso de muito pouco para ser feliz. Tem gente que só precisa de uns legumes e umas verduras e por vezes fica 1 semana sem porque não chega. 

Mas dale, esse texto não é para ser filosófico – mas antes de chegar ao dia de ontem, informo que fez um sol do caralho, que atravessei o Trópico de Capricórnio, e que conheci Humahuaca e a Sierra de 14 Colores (ahá vida, venci de novo e pelo dobro de cores).

12 de janeiro, dia de ir à Bolívia. Levantei cedo, fiz até a barba e sai cedo para o terminal, afinal de contas, depois de 48 horas de chuva tudo iria se normalizar. Me enganei. Não havia ônibus para La Quiaca, que é a cidade que limita Argentina a Bolívia. Sentei no terminal e esperei. Depois de um tempo, parou um ônibus para Humahuaca, que é mais perto de La Quiaca do que Tilcara (eu sei gente, os nomes são difíceis mesmo de guardar). Me fui!

Cheguei pela bandas de lá e adivinhem? Não tinha ônibus para lugar nenhum. Perguntei ao taxista quanto sairia uma corrida até a fronteira. Bom, o preço de um rim no Mercado Livre, porém, não era possível fazer (lembra? não chega gasolina em dias de chuva e a deles estava acabando). Mas a sorte me acompanhava e encontrei uma van que faria o trajeto por um preço camarada. “Com você são 5 pessoas, vamos esperar mais meia hora para encontrarmos mais gente”. “Dale”.

Ah, esqueci de contar uma coisa: eu tinha que estar na Bolívia as 14h30 porque tinha um trem até Uyuni as 15h30 e tinha que cruzar a fronteira – ao som de Crazy in Love, da Queen-B, claro -, fazer os trâmites de imigração, trocar o dinheiro e chegar ao terminal. Eram 11h30.

Antes das 12h, eles disseram que tinha pouca gente e por isso iam almoçar. “Mais tarde a gente volta”. “La re concha de tu madre!”

Sentei no terminal e esperei. Então, chegou uma menina que precisava fazer o mesmo que eu. Oba, uma amiguinha! Lá pelas tantas, um anjo trajado de saruel de moletom (não, não era nem ridículo e nem excitante o traje do rapaz), olhou para mim e perguntou onde eu iria. Eu disse. Ele falou “bora, vão sair agora 2 carros do hostel onde trabalho”.

Vem sorte, vem!

Meia hora depois, “fé em Deus e pé na estrada”. Em 1 hora e meia chego na fronteira, cruzo e está tudo dentro dos conformes. Mas a vida, minha gente, a vida é uma piada. Depois de um tempo de estrada e Johason na vitrola, o carro que saiu antes estava parado. O tanque esquentou e fazia apenas um sol de 37 graus lá fora. Paramos e eu só conseguia pensar:

( ) ¡puta madre! yo no puedo creer

(X) gente dá uma olhada nessas montanhas que lindas e essa estrada, parece que estou em Perfect Ilusion, da Lady Gaga, ou em You and I, nossa, se eu tivesse um chapéu preto ia tirar uma foto maravilhosa pedindo carona, meu deus 

Eu não sei quando e nem como isso aconteceu, mas eu me tornei uma pessoa muito calma durante a viagem. Dificilmente algo me abala ao ponto de eu ter dores no estômago, gastrite – o retorno, ou refluxo ou qualquer coisa do tipo. Sério, só pensava na paisagem. Então, comparti um mate com os novos amigos e estava ensinando umas frases em português para um che – mais 15 minutos e eu estaria ensinando o pajubá.

Nada do carro ficar pronto e eu já estava perguntando para os meninos o que poderia fazer em Potosi, no Centro da Bolívia, já que não iria mais para Uyuni e teria que pegar um ônibus a noite. Estava animado com as igrejas e a parte histórica da cidade, que forneceu ouro para a Espanha por longos anos. Ia mudar de rota? Ia. Ia perder um pouco de dinheiro? Também. Mas tudo bem, as coisas são assim mesmo.

Carro arrumado e vamos. Faltava menos de 1 hora para as 14h30 e ainda faltava um longo caminho. Porém, a vida não é feita só de piadas: quando você chega na Bolívia, o relógio atrasa 1 hora (posso ouvir um amém?). Eu só descobri isso quando faltava 10 minutos para as 15h30, horário da Argentina.

Eba! Vou pra Uyuni hoje! Tudo está tranquilo! Sob controle! A vida é demais! Nossa nem acredito! Será que consigo ir para o Salar amanhã mesmo? Tomara. Meus planos deram certo…

“Senhores passageiros, informamos que os trens para Oruro estão com 2 horas de atraso” (Oruro é o destino final, mas eu desço em Uyuni). O que me restou? Esperar: não 2, mas 4 horas e contemplar que sim, essa é a melhor viagem de férias da minha vida!

É sério.

É possível ter amigos héteros?

Eu não convivo com tanto heteressexual na minha vida desde a adolescência. Talvez seja porque quando saímos do armário, nós gays passamos a viver somente em guetos. É perfeitamente comum, pois precisamos nos sentir acolhidos. Não que tenhamos problemas com os héteros – claro, tem hétero chato pra caralho que a gente quer distância, mas não podemos generalizar -, porém é necessário viver em um grupo que nos aceite como somos, sobretudo que nos entenda.

E aqui estou, em outro país, vivendo em um hostel, cercado de pessoas do mundo todo, no qual podemos perceber que existem mais héteros do que gays na sociedade. Oh fuck! Como isso é possível? Sim, demorei muito para me acostumar com essa ideia. Nada como sairmos da nossa zona de conforto e do nosso mundo pintado (amo essa conjugação <3) de arco-íris e rodeado de unicórnios que exalam Carolina Herrera. Só aí você se dá conta de que a vida é outra lá fora e que existe muito mais homofobia e machismo enraizado nas pessoas.

Sabe quando falam da tal desconstrução diária que temos que fazer em nós e nos outros? Então. Imagina executar isso em outro idioma e sem a ajuda de ninguém para reforçar o coro. Além disso, você não pode colocar em prática a filosofia “se me atacar eu vou atacar” porque as coisas não vão funcionar dessa forma. Nem quando você está cercado de amigos gays ou gays friendly isso dá certo, imagina sozinho.

E lá vou eu, devagar e muito sutilmente dizendo que não é porque o cara é viado, ele é menos homem. Não é porque o rapaz bebe moderadamente, ele é bichinha. Não é porque o cara é gay afeminado, ele deixa de ser atraente (I love London boys). Não é porque a menina dança até o chão, ela deve ser desrespeitada. Não é porque a menina é lésbica masculina, ela deixa de ser mulher.

E não é porque a menina bebeu demais e foi transar com um cara que ela acabou de conhecer, ela é uma puta.

Essa última eu não ensinei para ninguém. Fui eu que aprendi. De um homem. Hétero. Sim, as viadas também são machistas e eu peço desculpas a todas as mulheres que um dia eu julguei errado. Se os homens podem beber e transar, por que as garotas não podem fazer o mesmo? É perfeitamente comum você conhecer alguém em uma noite, transar e nunca mais falar com essa pessoa. Isso se chama sexo casual e tanto homens quanto mulheres podem fazer. Não é mesmo, pessoal?

E assim eu vou aprendendo com os héteros do mundo todo. É cada lição singela (leia-se tapa na cara com luvinha de pelica) que aprendo diariamente que vocês não fazem ideia. Hoje em dia, até consigo ouvir alguém dizer que as músicas da Beyoncé são ruins sem voar no pescoço. Também entendo que se um cara puxa papo com você no bar e te oferece uma cerveja ele está apenas sendo legal e não está dando em cima – lição importante para os leoninos. Ah! Estou ouvindo mais rock and roll ultimamente e conhecendo mais sobre as bandas importantes e que fizeram história. Sério, isso é muito valioso para mim que só conheço Pop e MPB.

Outra coisa fundamental: posso contar os meus dilemas diários sobre a vida de um jovem gay na capital para qualquer pessoa próxima que ela vai me escutar. Não são amigos homens que convivem com muitos gays, mas são pessoas. Humanos. Que não diferenciam gênero na sua cabeça quando o assunto é amor, briga, sexo e outras coisas. Isso não é genial? Para mim que viveu 7 ou 8 anos da vida somente com gays, compartilhar sobre qualquer assunto com pessoas muito diferentes de mim e ser compreendido é enriquecedor.

E não, eu não estou falando top ou, como dizem aqui, cheto!

Abajo!

“Oh! La cama es rota, ella va abajo”. Foi uma das primeiras frases que eu ouvi na minha chegada em um hostel em Buenos Aires, minha nova casa. Estava dormindo no quarto The Rolling Stones, quando o chico debaixo me acordou para dizer isso. Ele queria pegar umas peças de roupa atrás do beliche e estava meio atônito. Não dei muita trela para ele e virei para o lado. Porém, eu sabia que a minha hora ia chegar.

E chegou!

Na noite de hoje, eu decidi que ia dormir cedo. Mentira, não decidi, eu simplesmente dormi porque caminhei o dia todo. Estava doce e sereno no meu sono profundo quando senti “é agora”. Em um curto espaço de tempo, talvez nos dois segundos mais longos da minha vida, a cama de cima se inclinou em um lindo anglo de noventa graus. No caso eu era o lápis que desenhava essa ligação de pontos espetacular: do alto ao chão. Foi tudo muito rápido e eu instintivamente me sentei meio torto para não bater a cabeça.

A minha primeira reação? Rir. E rir muito! Mas as pessoas se assustaram tanto com o barulho, que não deu nem tempo de curtir este momento único comigo mesmo. Me levantei e logo fui procurar ajuda. Por sorte, outro brasileiro estava na recepção. Rimos antes de ver o que havia acontecido.

Fomos ao quarto e realmente parecia um estrago grandioso. Na verdade foi, porque não é todo dia que um beliche quebra em dois ou três lugares e isso fica suave de ver. Por sorte, o cara debaixo já tinha ido embora e o novo estava numa festa.

Comigo está tudo bem e eu não machuquei nada: apenas tenho mais uma história engraçada para contar sobre a viagem 🙂

“Beware doll, you’re bound to fall” (Like a Rolling Stone)