Blue Monday

Sobrevivi. Eu pensei que não poderia ficar sem internet por mais de 1 dia e a vida me deu 4 como amostra de que é possível se desconectar. Mas antes de contar como foi a minha última experiência, peço desculpas a minha mãe porque eu disse “a noite te conto como é o Salar de Uyuni” e fiquei aí umas 80 horas em silêncio. “Não mãe, não é na Bolívia que tem as FARC. Não, eu não vou para a Colômbia agora. Sim, eu tenho vontade mas não é dessa vez. Sim, mãe, a Aninha tá segura mesmo estando na Colômbia”. Enfim, desculpa, mãe.

Cheguei em Uyuni com muitas horas de atraso, lá pelas 6 da manhã. Meio sonado, um cara me abordou na saída da estação oferecendo um tour para o Salar e eu disse sim porque não queria pensar muito. Quem já deu um Google sobre as experiências das pessoas no passeio, sabe que de 10, 8 são furada por “n” motivos. Mas eu pensei “ralei demais para chegar aqui, não há de passar nada”. E, bom… A vida é gentil na maioria das vezes, porém temos o costume de vangloriar os desastres. E a vida foi muito, mas muito gentil comigo. 

No meu grupo, havia um carioca (porque há brasileiro em todos os lugares do mundo), um casal de irmãos espanhóis re buena onda e um casal francês lindo (sobretudo o cara, que nossa, sorrio só de lembrar, rs). Em 5 minutos esperando carregar o carro, nos tornamos melhores amigos, afinal de contas, tenho lua em gêmeos e me apego às pessoas muito rápido. Primeira parada: Cementerio de Trenes. Me senti em Mad Max, inclusive, porque bati com a cabeça em um dos vagões e fiz um galo gigantesco, no qual o nomeei de Ornacia. Depois, Salar de Uyuni.

Quando eu saí do Brasil, tinha apenas uma certeza: posso viajar por 2, 4 ou 8 meses, mas tenho que chegar ao Salar. E para variar a minha reação foi de choro. Chorei feito criança correndo por aquele lugar incrível. Por sorte, havia chovido 1 dia antes e o piso estava com água formando grandes espelhos. De onde você olhava, chão e céu se misturavam no horizonte formando algo mágico aos olhos. Sério, vocês precisam conhecer o Sul da Bolívia porque é um dos lugares mais incríveis do mundo.

No dia seguinte, conheci inúmeras lagunas, locais desérticos, montanhas e um parque ecológico. O dia começou com lhamas, muitas lhamas correndo por lagunas onde foram gravados os 2 Reis Leão – eu sei que é uma animação, mas parecia mesmo à selva onde o pai do Simba diz “mira Simba todo lo que toca la luz es nuestro reino”. Porém só tinha lhama, enfim, era lindo. Então aconteceu algo muito louco: de manhã estava frio, aí fez um sol do caralho, apareceram as nuvens e começou a chover. E do nada: tempestade de neve. Depois parou tudo e a vida seguiu. Parecia que eu estava num dia em São Paulo com 4 estações + neve. A noite, fiquei em um hotel “Mil Estrelas”, como eles costumam dizer. A comida era maravilhosa, a companhia agradável, a altitude fudendo com a minha cabeça e a habitação, bom, imaginei que seria mais perrengue. 

Lembra que eu falei que estava sem internet? Então, depois de ver tanto lugar maravilhoso, parei de tremer e esqueci do celular. Não sei onde eu imaginei que no meio do deserto teria Wi Fi, mas a gente aprende umas coisas óbvias ao longo da vida. No mais, usava o celular apenas para fazer fotos – acho que recentemente publiquei 6 ou 7 direto no Instagram, perdão mundo, rs. E melhor: a bateria estava cheia e olha que estamos falando de um iPhone viciado.

Último dia e eu estava de pé as 4 da manhã para ver os géiseres ao nascer do sol. Mais uma experiência linda e inacreditável. Nunca vi tanto uma paisagem mudar em questão de 1 hora como o Sul da Bolívia. 

Tudo lindo, tudo maravilhoso e eu já estava estranhando as coisas dando muito certo. Mas a vida, a vida prega peças alá Juju Carmona uma hora ou outra. Cheguei à fronteira e entrei na fila para carimbar a saída da Bolívia. Entreguei meu passaporte e o cara começou a folhear. “Cadê seu carimbo de entrada na país?”  “Não tá aí? Deixa eu ver… Aqui ó. Oh ou!”. Eu estava tão atônito na fronteira Argentina-Bolívia, que entrei apenas no guichê de saída da Argentina e passei direto. Como o lugar era bem desorganizado, me esqueci desse pequeno detalhe. “E agora, moço?” “300 bolivianos de entrada, 15 de saída. Próximo”. Me diz: onde eu vou sacar toda essa grana numa fronteira no meio do deserto? Impossível. E quem entra com tudo isso no Chile para te emprestar? Ninguém. E qual foi a minha reação?

( ) ter uma leve dor no estômago, passar mal, suar frio e pensar em chorar

(X) ter uma leve dor no estômago, passar mal, suar frio, pensar em chorar e sair belíssima da salinha como se nada tivesse acontecido e entrar no ônibus do translado

É. Fiquei muito nervoso e sai. Aí conversei com o motorista do translado que, com muito humor, me disse “ninguém precisa desse carimbo, agora me ajuda com as malas já que você deu esse vacilo”. “Dale”. Confesso que até chegar em San Pedro de Atacama, no Chile, fiquei meio tenso, mas seria humilhação demais ser preso na fronteira da Bolívia. Não que eu tenha preconceito, mas eu tenho preconceito sim, rs Poderia ser preso na entrada dos EUA pelo México, cheio de cocaína no cu e fazer a Sol, em América, mas não na saída da Bolívia. Claro, poderia ser uma versão Sul-americana já que tem bastante cocaína saindo da Bolívia, mas né? Vamos fazer direito. 

Passei pela alfândega e entrei no Chile. “Ufa, agora só necessito de uma cerveja para curtir esse lugar lindo”. E qual foi a minha última surpresa: choveu. Choveu no deserto mais árido do mundo e isso só acontece entre 2 ou 3 vezes ao ano. Azar? Considero sorte porque não senti tanto calor e porque fui ao Valle de la Luna e fez um arco-íris lindíssimo. No. Meio. Do. Deserto. O guia me disse que isso é raríssimo e eu estou gostando dessas raridades que a viagem está me proporcionando.

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