É possível ter amigos héteros?

Eu não convivo com tanto heteressexual na minha vida desde a adolescência. Talvez seja porque quando saímos do armário, nós gays passamos a viver somente em guetos. É perfeitamente comum, pois precisamos nos sentir acolhidos. Não que tenhamos problemas com os héteros – claro, tem hétero chato pra caralho que a gente quer distância, mas não podemos generalizar -, porém é necessário viver em um grupo que nos aceite como somos, sobretudo que nos entenda.

E aqui estou, em outro país, vivendo em um hostel, cercado de pessoas do mundo todo, no qual podemos perceber que existem mais héteros do que gays na sociedade. Oh fuck! Como isso é possível? Sim, demorei muito para me acostumar com essa ideia. Nada como sairmos da nossa zona de conforto e do nosso mundo pintado (amo essa conjugação <3) de arco-íris e rodeado de unicórnios que exalam Carolina Herrera. Só aí você se dá conta de que a vida é outra lá fora e que existe muito mais homofobia e machismo enraizado nas pessoas.

Sabe quando falam da tal desconstrução diária que temos que fazer em nós e nos outros? Então. Imagina executar isso em outro idioma e sem a ajuda de ninguém para reforçar o coro. Além disso, você não pode colocar em prática a filosofia “se me atacar eu vou atacar” porque as coisas não vão funcionar dessa forma. Nem quando você está cercado de amigos gays ou gays friendly isso dá certo, imagina sozinho.

E lá vou eu, devagar e muito sutilmente dizendo que não é porque o cara é viado, ele é menos homem. Não é porque o rapaz bebe moderadamente, ele é bichinha. Não é porque o cara é gay afeminado, ele deixa de ser atraente (I love London boys). Não é porque a menina dança até o chão, ela deve ser desrespeitada. Não é porque a menina é lésbica masculina, ela deixa de ser mulher.

E não é porque a menina bebeu demais e foi transar com um cara que ela acabou de conhecer, ela é uma puta.

Essa última eu não ensinei para ninguém. Fui eu que aprendi. De um homem. Hétero. Sim, as viadas também são machistas e eu peço desculpas a todas as mulheres que um dia eu julguei errado. Se os homens podem beber e transar, por que as garotas não podem fazer o mesmo? É perfeitamente comum você conhecer alguém em uma noite, transar e nunca mais falar com essa pessoa. Isso se chama sexo casual e tanto homens quanto mulheres podem fazer. Não é mesmo, pessoal?

E assim eu vou aprendendo com os héteros do mundo todo. É cada lição singela (leia-se tapa na cara com luvinha de pelica) que aprendo diariamente que vocês não fazem ideia. Hoje em dia, até consigo ouvir alguém dizer que as músicas da Beyoncé são ruins sem voar no pescoço. Também entendo que se um cara puxa papo com você no bar e te oferece uma cerveja ele está apenas sendo legal e não está dando em cima – lição importante para os leoninos. Ah! Estou ouvindo mais rock and roll ultimamente e conhecendo mais sobre as bandas importantes e que fizeram história. Sério, isso é muito valioso para mim que só conheço Pop e MPB.

Outra coisa fundamental: posso contar os meus dilemas diários sobre a vida de um jovem gay na capital para qualquer pessoa próxima que ela vai me escutar. Não são amigos homens que convivem com muitos gays, mas são pessoas. Humanos. Que não diferenciam gênero na sua cabeça quando o assunto é amor, briga, sexo e outras coisas. Isso não é genial? Para mim que viveu 7 ou 8 anos da vida somente com gays, compartilhar sobre qualquer assunto com pessoas muito diferentes de mim e ser compreendido é enriquecedor.

E não, eu não estou falando top ou, como dizem aqui, cheto!

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