No limite

Há alguns dias eu reclamei porque fiquei 6 horas sem energia e sem água. Já estou em Laguna da Rocha há quase um dia e somente agora consegui um ponto de eletricidade. Aqui tudo funciona com luz solar, mas chove lá fora (eu durmo aqui dentro? não) faz tempo. Com isso, temos pouca energia ao longo do dia. Por sorte, arrumamos o cano pela manhã e agora temos água. Claro, isso não significa que ela seja quente e nem que eu tomei banho.

Cheguei ontem debaixo de chuva. Desci no meio da rodovia, no km 198,50. Jorge (outro na minha vida, rs) estava me esperando com a sua namorada. Ele, o ariano mais torto que já conheci, fala rápido um espanhol difícil de compreender. Ela, de sorriso doce e sereno, explica o que ele tenta dizer. Chegamos na porteira. Desci, coloquei as minhas galochas e andei por 2 km. Sussa, não? Chovia, ventava e eu estava com 15 kg nas costas, mas eu não reclamei. Inclusive, acho que o que menos faço hoje em dia é reclamar. Pulei a cerca, encontrei as vacas no caminho e a lanterna do celular desligou. No escuro fui e a luz de velas permaneci, mas nada de clima romântico, somente uma realidade nova se mostrando em minha frente.

Para o jantar? Assado ou churrasco para os brasileiros. Tudo na lareira. Dormi sem saber que horas eram, despertei com a pouca luz que entrou no meu quarto.

Caminhei alguns quilômetros novamente para sacar os sujos. A chuva era torrencial, o vento era absurdo e como somos em três brasileiros – aqui tem um casal de onde? de São Paulo, claro – e têm apenas 2 pares de luva, eu, como novato, fiquei com a mão esquerda. Tentamos trabalhar no campo e fizemos milagre. Sacamos pela raiz a quantidade de plantas que deu, mas foi preciso voltar. Água até o joelho em alguns pontos, vento cortando o rosto na lateral e muita chuva. Me desequilibrei diversas vezes e quase cai, mas nada disso aconteceu. Ufa! Pelo menos agora sei que posso participar do Passa ou Repassa numa boa.

Minha mão sem luva ficou paralisada por algum tempo? Ficou. Meus pés ficaram vermelhos e congelados com o frio? Sim, ficaram. Eu achei que estava com uma leve hipotermia? Talvez, mas nada disso me deixou mal. Acho que toda essa experiência só me faz bem, pois nada mais está no meu controle e, dessa forma, a ansiedade nem chega perto – e nem deve.

A única coisa que eu consigo pensar agora é que não troco nada disso por uma vida dentro de um escritório, com as janelas fechadas e ar quente. A liberdade não tem preço!

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