A jardineira e o mar

 

Ela não vive em nenhum lugar que não seja próximo ao mar. E hoje em dia, a sorridente Servina não sabe se viveria sem estar em contato com a terra. De olhos castanhos bem claros e cabelos cacheados, a uruguaia se esconde em tantos agasalhos, abrigos, lenços e tocas. Ela sente muito frio, principamente, nos pés. Meias e mais meias, além de botas longas. Pronto: já podemos começar o dia.

Com muita simpatia, me recebeu com pás, tesouras e outros equipamentos de jardinagem que só sei o nome em espanhol. Cheia de curiosidade, respondi algumas perguntas sobre o Brasil. Papo leve: Maria Rita, cachaça, caipirinha e tudo que há de bom em nosso País. O doce de leite mineiro é melhor, eu disse. Ela rebateu e pediu para eu experimentar o Lapataia. Comprei um pote hoje e que os meus amigos mineiros não me ouçam: gostei mais do daqui. Papo sério: foi golpe? Eu ri e disse que sim. Mas também falei que tem gente que diz que não. Contei tudo da forma mais parcial que consegui… E foi golpe! rs

Servina é formada em secretariado, algo parecido com administração no Brasil. Também cursou história enquanto estava terminando o curso de exatas, mas não aguentou o tranco: largou tudo e foi viver o mundo. Após uma estadia na Bolívia e no Equador, conheceu a permacultura e agora está aqui, todos os dias, compartilhando conhecimento comigo. Além disso, ela me mostra que eu não tenho muito do que reclamar: vem para o trabalho de bicicleta, no vento forte e gelado. Quando não é possível, pega o único ônibus da manhã, que deixa longe daqui. Para voltar? Testa a sorte na estrada pedindo carona. Hoje, sem brincadeira nenhuma, veio de patinete. PA-TI-NE-TE!

A menina de riso singelo e gargalhada engraçada, traz em si muitas respostas para as minhas perguntas. E olha que nem falo tanto, mas de alguma forma, ela responde os questionamentos que me fizeram repetir a mesma história que a dela. E não é que estou me apaixonando pela vida simples, pelo ato de plantar, pela permacultura e pelo mar, aqui, pertinho de mim?