Reflexões sobre a vida de merda

Foto: Seu Lili - Terça Insana (divulgação)
Foto: Seu Lili – Terça Insana (divulgação)

A vida é uma bosta. Sempre vamos cagar nela. Quando eu era bebê, não conseguia controlar a merda que se esvaía por entre as minhas pernas. O leite materno entrava, me alimentava e eu cagava. Igual pomba. Bosta fedida para todo o lado. Foram muitas fraldas brancas para trocar e sorrisinhos inocentes para convencer a minha mãe que eu me sujava, mas tinha um bundão macio e que dava vontade de morder, claro, quando estava limpo e cheirando a talco.

Na infância, a cueca com elástico apertava as minhas pernas e o desafio era difícil: cagar sem ser nas calças. Fazer as próprias merdas e limpá-las era muito complicado. Nas primeiras vezes, eu me atrapalhava e não sabia por onde começar a lavação da bunda. Se a situação ficava preta, o “mãe, cabei” resolvia o meu problema.

Depois que aprendi a limpar a minha própria bunda, a vida passou como um pum desenfreado e sem aviso, que marca o território com o mau cheiro que sai das entranhas. E foi na adolescência que as minhas merdas pareciam ser de outro planeta. Eram extraterrestres que desbocavam pelo vaso e não iam embora de jeito nenhum. Não tinha como esconder as cagadas feitas fora de casa. A vida entregava todas de bandeja em pratos sujos e imundos para eu lavar.

Aos 25, a neura de cagar no trabalho era tão grande que eu suava frio quando algo não me caia muito bem e queria se livrar do meu corpo feito água de barro. A tensão era tão grande que qualquer movimento sorrateiro podia ser o fim da minha imagem de pessoa que não fazia bosta na vida. A desconstrução do personagem que eu mesmo havia criado ao longo dos anos era a vergonha mais assustadora que existia.

Com a vida mais ou menos trilhada e muitas cuecas marcadas de vexame, os 40 exigiam menos bosta no horário comercial. Cagar mesmo só era possível no banheiro de casa, no único horário que ninguém me enchia o saco e eu lia o meu jornal. Mas claro, quando o intestino funcionava, o que era raro devido à pressão do mundo sob o seu estômago.

Dureza a vida, não? Mas é a única coisa dura na minha atual fase: àquela que antecede a morte. A bosta mole se torna algo frequente, pois os alimentos são recusados pelo meu aparelho digestivo. E o pior é saber que a sujeira e as fraudas geriátricas comprovam que estou encerrando a minha vida de merda da forma mais deprimente: com um desconhecido limpando o meu bumbum caído, murcho e que ninguém quer apertar, nem cheirar.

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O velho

Foto: Lucas Incas

Você é sujo, mas se formos olhar para dentro de nós ninguém é tão limpo assim. Das vezes que cruzamos o mesmo caminho, senti um cheiro não muito agradável: o meu, claro, pois o seu com apenas um banho resolve. A cerveja barata na mão é sagrada, quase um ritual. Lata vai, lata vem e de hora em hora eu me aproximo da janela para te observar. Enquanto tento acompanhar os seus movimentos imprecisos, fico imaginando o que te levou até a sarjeta.

Talvez você tenha tirado o sustento das estradas e, vez ou outra, depositava um trocado nas mãos da preta que cuidava dos rebentos que nunca foram muito seus. Pelos cantos do vasto chão de poeira, você se divertia com aquelas com quem se deitava antes de seguir pelo asfalto. Um dia seguiu e nunca mais se encontrou. Ou você foi um comerciante de rua. Tirava do potencial vocal o dinheiro para dar de comer a família. Do alimento que a terra dava, você conseguia comida aos pequenos e grana para uns industrializados no domingo. Um dia não aguentou as tradicionalidades. Não gritou mais.

Apesar dos julgamentos, do alto da minha janela, imagino que o dia a dia das ruas não seja fácil. Porém deve ser libertador saber que ninguém se importa muito com a sua vida, a não ser pela sua aparência não tão agradável. Retorno ao sofá e fico pensativo sobre a minha vida invejável, de moldes em que tento me encaixar mesmo sabendo que braços, pernas e mente ficam de fora. Quem eu quero enganar? Rrum… Não tenho coragem de abandonar a minha vida mesquinha. Já você, que me parece superior agora, segue a vida exalando verdades.

Meu irmão é mais velho

Sempre achei que esse dia ia ser fantástico. Na infância, porque eu teria um quarto só pra mim. Poderia ter espaço para os meus brinquedos, espaço pra correr em volta do eixo do meu próprio corpo. Poderia desenhar o meu reinado de fantasias e ícones: dinossauros, pokemons, digimons. Ter espaço pra todo o meu reino animado…

Passaram os anos e você deixou de jogar videogame comigo, de me dar cascudos na orelha e de me dedurar para nossa mãe. Os anos passaram e você se tornou adulto antes de mim. Quando precisei de um irmão, havia silêncio. Quando fui para fase adulta também, você foi um irmão. E por incrível que pareça o silêncio foi essencial para você demonstrar o amor que nos ligava.

Você é maior que eu, mais careca que eu, tem mais barba que eu. Você é feito de silêncios e frases claras e de impacto. Você chora no banheiro, bate na televisão, grita no telefone. Gosta mais do cachorro do que eu. Usa meus tênis, odeia minhas calças. Já rasgou uma calça minha. Pega as minhas bermudas, estraga as minhas blusas de frio. Você tem chulé, come mais que eu, mas prefere tomar água ao invés de refrigerante. Você é mais nerd que eu, lê mais livros que eu, mas gosta mais de televisão do que eu. Você assisti Rebelde e Chaves. Gosta de “Two and a half men” e vê o mesmo jogo de futebol duas vezes. Assisti todos os programas esportivos, mas não dá risada com o Tiago Leifert. Você gosta de sorvete e hoje “vou tomar um sorvete para alegrar o meu dia”.

402 km nos separa a partir de hoje e eu vou dormir na sala porque não quero ficar sozinho no quarto.

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O amor mais contestável: família (parte 2)

A madrugada chega e o silêncio que havia se estabelecido por algumas horas acaba. O telefone toca e a mãe, que vive de prontidão, atende. A polícia mais uma vez pegou o seu filho caçula em uma festa. Muito drogado e alcoolizado, o menino foi levado à delegacia juntamente com uns amigos. Todos de classe média, com pais que costumam bancar as noites de farra e diversão dos moleques. A matriarca fica em estado de choque, pois não consegue se acostumar com as atrapalhadas do filho.

Neste momento, o pai ainda alterado dos goles exagerados de cerveja acorda eufórico. A mulher explica a situação. Ele inicia uma discussão e afirma piamente que a “incompetente” não educou o garoto. “É a sua obrigação, mulher! Eu trabalho para dar do bom e do melhor e você nem serve para criá-lo”. Ela chora, pois é a única maneira que encontra para sanar o vazio que aumenta a cada dia dentro do seu coração.

O pai é rude com o moleque na delegacia. Grita, xinga, da uns tapas que em algumas vezes acertam o menino. Um é mais culpado que o outro, mas como os pais tem sempre a razão, é obrigação do caçula baixar a guarda. A mãe abraça o filho e diz que tudo ficará bem. Ele recebe amor de um lado e ódio do outro. Todos não entendem o escândalo, mas quando buscam na mente, se recordam de já ter presenciado esta cena em algum momento nas suas vidas…

Às vezes, olhamos para o outro de forma crítica, mas temos vergonha de assumirmos ter um pai alcoolatra, uma mãe super protetora, um irmão sem limites. Família é o tema que mais tem me visitado a mente nestes últimos dias. Acredito que a culpa está em “Brothers and Sisteres” ou apenas no meu olhar atencioso sobre a minha família. Tenho começado a sentir saudade daquilo que eu ainda não vivi. Fico imaginando como será em 2013, quando o meu ciclo faculdade-início da vida adulta irá se findar. Penso que terei que seguir o meu rumo sozinho e isso me assusta mais do que foi ter entrado na faculdade, terminado o ensino médio, ter passado pela primeira semana de avaliação em algum estágio.

Tenho medo de não dar conta da vida sem o “sim” ou “não” do meu pai. Me assusta imaginar que chegarei em casa e minha mãe não estará mais lá. Mesmo que muitas vezes ela reprove os meus atos, as minhas manias e os meus critérios de encarar a vida, eu sei que ela, em nenhum momento, deixou ou deixará de me amar. Mas só de pensar que o vazio irá existir, tenho medo.

Por outro lado, encaro como alívio não ter um pai me dizendo o que é certo, o que é errado. Fico feliz de imaginar que poderei trazer para o meu abrigo qualquer que seja a pessoa, em qualquer que seja o horário. Poderei ter mais um gato, não arrumar a cama e escutar música na altura que me agrade. Eu terei a possibilidade de tomar banhos longos, pois a conta de água e de luz serão pagas por mim. Eu terei a chance de gritar quando eu quiser.

Mas não será a mesma coisa. Não será porque grande parte daquilo que eu desejo fazer é proibido pelas regras impostas por meus pais e não ter mais a chance de quebrar uma delas não é legal. Não tem graça fazer por fazer, sem contestar. Não tem a mesma graça sem um irmão para brigar, para disputar o banheiro pela manhã.

Não será a mesma coisa, pois família é isso: um amor que se contesta, mas que vale a pena. Mesmo tendo um irmão arrogante, uma irmã rebelde, lésbica e que não é aceita pelos pais. Ter um irmão super protegido por uma mãe fria, severa e individualista. Ter um pai alcoolotra, autoritário e que mantém suas outras famílias pela vida a fora. Mesmo que tudo isso pareça algo odiável, não tem como deixar de amar. Família: eu te odeio com amor, eu te amo com o meu ódio.

* todos personagens são fictícios, mas que fazem parte da sua e da minha família